João Marques de Almeida

A cegueira das vaidades
Diário Económico, 13|Abril|2009

Antes de entrar no argumento, uma clarificação necessária. Dada a minha relação de colaboração com o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, não sou imparcial no que se segue.

Com toda a transparência, esta crónica defende uma posição política e ataca outros argumentos. Mas faço-o por minha iniciativa e com total liberdade intelectual. Uma atitude natural nos debates políticos das sociedades abertas.

Algumas pessoas atacam o presidente da Comissão Europeia e a possibilidade de ser escolhido para um segundo mandato devido à sua "proximidade" ao anterior presidente norte-americano, George Bush. De acordo com esta tese, todos aqueles que se aliaram aos Estados Unidos durante os últimos oito anos, deveriam ser afastados dos cargos que ocupam. Estes argumentos mostram, em primeiro lugar, uma incompreensão total sobre a continuidade da política externa norte-americana. E, em segundo lugar, um absoluto desprezo pelo interesse nacional português.

Para o presidente Obama, os políticos europeus que estiveram ao lado da antiga Administração, não ajudaram Bush, apoiaram os Estados Unidos. É essencial entender a diferença. O Presidente Obama não deixa que as posições do cidadão Barak e do candidato democrata, contra a guerra do Iraque, se imponham aos interesses dos Estados Unidos. Por isso, escolheu Hillary Clinton, que apoiou a guerra do Iraque, para Secretária de Estado e manteve o Secretário da Defesa da anterior administração, Robert Gates. Além disso, para Obama, quem apoiou Bush, apoiou os Estados Unidos; e isso é o que conta em política externa. Talvez os factos ajudem a melhorar a compreensão.

Quem foi a primeira personalidade política europeia a ser recebida por Obama depois da sua eleição? Tony Blair.

Quem foi o primeiro chefe de governo a ser recebido na Casa Branca pelo presidente Obama? Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, o país que está em segundo lugar em número de tropas no Iraque.

Quem é que Obama apoiou para secretário-geral da NATO? O antigo primeiro-ministro dinamarquês, Rasmussen, aliado firme de Bush nas guerras do Afeganistão e do Iraque.

Ao contrário do que julgam alguns, para o actual presidente norte-americano o apoio aos Estados Unidos depois do 11 de Setembro foi um sinal de solidariedade num momento particularmente difícil para a sociedade norte-americana que merece recompensa e gratidão. Quando Obama se encontra com líderes europeus como Gordon Brown, Durão Barroso e Rasmussen, sabe que está a encontrar aliados firmes dos Estados Unidos que mesmo num momento particularmente difícil, como foi a presidência de Bush, souberam estar ao lado do seu país. E sabe que poderá estabelecer com eles uma relação de confiança para o futuro.

Quanto ao interesse nacional, é inaceitável que políticos que ocuparam lugares de destaque no nosso país ou em instituições europeias ignorem a importância que um presidente português da Comissão Europeia tem para Portugal, apenas por inveja, vaidade, ou antipatia pessoal. Noutros debates e noutras discussões, estas pessoas citam vezes sem conta o conceito de ‘soft power'. Um presidente português na Comissão Europeia é, neste momento, o maior exemplo do ‘soft power' de Portugal. Quem se preocupar com o prestígio, a influência e o interesse de Portugal não pode ignorar este facto básico da política contemporânea. É muito fácil perceber o peso político que Portugal adquire. Os "argumentos portugueses", o modo português de olhar para a política europeia e global, não precisam da intervenção directa do presidente da Comissão, para serem pesados e apreciados. A justeza das posições portuguesas é mais facilmente entendida. Alguém tem dúvidas de que as políticas de coesão seriam fortemente abaladas se o próximo presidente da Comissão viesse de um país céptico em relação aos fundos sociais europeus, mesmo que fosse socialista? Ainda um outro exemplo: nenhum antecessor do actual Presidente da Comissão deu a mesma importância a África e ao Brasil.

Curiosamente, líderes europeus de esquerda, como Brown, Zapatero e Sócrates fazem parte dos principais apoios para um segundo mandato de Durão Barroso. Ironicamente, os recentes ataques à possível reeleição de Durão Barroso demonstram que alguns políticos necessitam de criticar o actual presidente da Comissão para os portugueses se lembrarem que existem.