João Marques de Almeida

A “crise”, Marx e Obama
Diário Económico, 17|Novembro|2008

A eleição de Obama como um Presidente do centro-esquerda é mais uma demonstração de que Marx já não é deste mundo.

Pobre Marx. Estava finalmente liberto de tudo o que lhe fizeram durante a século XX, quando se lembraram outra vez dele a propósito da actual crise financeira e económica. Já não bastava ter sido usado para se justificar algumas das maiores atrocidades que se cometeram por esse mundo fora, como agora querem usá-lo para um mundo que é radicalmente diferente daquele que conheceu e onde viveu. É difícil encontrar outro autor a quem os seus defensores fazem tanto mal.

Só aparentemente é que os colóquios sobre o pensamento de Marx (estão outra vez na moda) discutem a “crise”, o século XXI, o “capitalismo global” ou até o próprio pensamento de Marx. As reuniões são organizadas apenas para servir os interesses dos seus participantes. Uns, os “militantes”, utilizam-nas como plataformas políticas para fazerem discursos populistas e demagógicos, onde se espalha raiva e ressentimentos. Outros, os “académicos”, a maioria “especialistas” em Marx, sentem que a “crise” abre óptimas oportunidades de negócio: venda de mais livros e subida na carreira. As verdadeiras questões desses colóquios são: quanto é que esta “crise” vai valer em termos de votos nas próximas eleições e de cátedras em Sociologia e em História nos próximos concursos? Mais uma vez, os “pobres” e quem “trabalha” não passam de instrumentos, usados sem qualquer escrúpulo, nas estratégias de poder de alguns.

Todos os participantes nessas reuniões sabem muito bem que um autor que escreveu sobre uma época industrial e dominada pelas potências europeias, pouco ou nada pode ajudar perante uma crise financeira global e um mundo pós-europeu marcado pela ascendência de novas potências. E não são os malvados “neo-liberais”, nem o pensamento de Adam Smith, os “culpados” da vitória do capitalismo. Foi o colapso da União Soviética e a revolução capitalista na China que demonstraram as virtudes da economia de mercado. Em cada estatística, em cada comparação, em cada artigo que celebram e mostram o crescimento económico da China e da Índia, encontra-se a vitória do capitalismo e a derrota do socialismo. Como diria Marx, a história raramente engana.

Politicamente, o facto de o “renascimento” de Marx (o “profeta” e não o autor) coincidir com a eleição de Barak Obama vai acentuar as divisões nas esquerdas europeias. Os novos alinhamentos, de resto, começam a definir-se. Antes de mais, a fractura do “anti-americanismo” vai deslocar-se para a esquerda. Os partidos europeus de centro-esquerda vão procurar marcar pontos com a vitória de Obama, utilizando a sua eleição para reforçar a sua legitimidade política em tempos de crise. É o que já estão a fazer os trabalhistas britânicos, o SPD, os socialistas espanhóis e portugueses, e é o que tentará fazer o PS francês, se conseguir sair do buraco onde se meteu. A esquerda radical, a “neo-marxista”, principalmente na Alemanha, em França e em Portugal, afirmam que Obama não é de esquerda (alguns já disseram mesmo que algumas das suas políticas estão “mais à direita que as de Bush”; não há dúvida que a demagogia não tem limites) e vão reforçar o seu “anti-americanismo” e “anti-capitalismo”. A transformação do Presidente Bush num “neo-conservador radical” deu uma face moderada ao “anti-americanismo”, o que beneficiou acima de tudo a esquerda radical. Esses dias acabaram.