João Marques de Almeida

Democracia na América
Diário Económico, 10|Novembro|2008

A eleição de Obama abre uma oportunidade única, desde o fim da Guerra Fria, para refundar a relação transatlântica.

Os Estados Unidos podem fazer guerras contra a vontade da maioria do resto do mundo, podem mesmo tomar decisões difíceis de entender, mas quando se trata de dar lições de democracia ninguém o faz como os americanos. Quando estudou a “democracia na América”, Tocqueville percebeu como ninguém que a América é a terra da democracia. Todos os que acompanharam a longa eleição, desde Janeiro deste ano, admiraram certamente a força e a vitalidade das discussões públicas, a elevação dos debates políticos e, acima de tudo, a qualidade dos candidatos.

É precisamente na qualidade dos candidatos que se encontra parte da justificação da derrota de McCain. A escolha de Sarah Palin foi um erro sem emenda possível. As suas ideias e opiniões não estão em causa. Em democracia, o pluralismo não deve ser questionado. E o pior (embora seja mau) não foi sequer a falta de preparação ou mesmo a ignorância. O pior de tudo, o mais grave, foi o desdém da candidata e dos seus próximos pelo lado intelectual da política e a celebração de um populismo básico e demagógico. Como escreveu um grande intelectual americano, Mark Lilla, no “Wall Street Journal”, o Partido Republicano caiu numa moda tão perigosa como perturbadora: o “populismo chic”. Perturbadora, porque é quase uma celebração da ignorância. A partir de certa altura, grande parte da estratégia dos republicanos passava por defender e elogiar a ignorância de Palin. Perigosa, porque a falsa oposição entre a esquerda “educada” e “intelectual” e a direita “popular” e “anti-intelectual” é a maior ameaça à credibilidade de qualquer movimento político de centro-direita.

Entende-se que a esquerda faça e procure manter essa distinção, porque só tem a ganhar. A própria direita fazê-la é, simplesmente, suicida. A prazo será mesmo mais penalizador do que muitos dos erros cometidos pelo Presidente Bush. Constitui, além do mais, um retrocesso de décadas para o movimento republicano nos EUA. Nas últimas três décadas, a direita americana não só foi a mais intelectual de todas as direitas ocidentais, como batia largamente a esquerda. A legitimidade intelectual que o movimento neo-conservador (o verdadeiro, não a caricatura) deu à direita americana, e que poucos entenderam na Europa, pode estar a perder-se. Pela sua qualidade, pelo seu passado e pela sua coragem e integridade, McCain não mereceu a parceira que o Partido impôs. Infelizmente, ao aceitar, mostrou uma grande fraqueza. Uma fraqueza que um aspirante à Casa Branca não pode revelar.

Já quase tudo se escreveu sobre Obama. Sobre o seu carisma, sobre a sua capacidade de comunicador, sobre a sua inexperiência, sobre os seus defeitos, sobre o capital político que leva para Washington, sobre a esperança e as ilusões que deu ao mundo e sobre as desilusões que esse mesmo mundo irá ter. Não há muito mais que se possa acrescentar neste momento. A partir de agora só o tempo é que vai acrescentar o que interessa. Gostaria no entanto de levantar dois pontos que me parecem importantes. O primeiro tem a ver com a raça. A partir de agora, ninguém terá razão quando disser que a sociedade americana é racista ou que os negros não têm as mesmas oportunidades que os brancos. Além disso, a vitória de Obama constitui um desafio para os países europeus. “Onde estão os “Obamas” europeus?” Esta pergunta surgiu e não vai desaparecer. Conseguirá o velho conservadorismo europeu (igual quer na esquerda como na direita) passar um dos testes de Tocqueville, “nas democracias cada geração é um novo povo”?

Em segundo lugar, a eleição de Obama abre uma oportunidade única, desde o fim da Guerra Fria, para refundar a relação transatlântica. Apesar de muitas das ameaças aos Estados Unidos e de muitos dos interesses americanos serem os mesmos, é um erro afirmar que a “América de Obama” será igual à “América de Bush”. A eleição de Obama é o resultado da vontade da América de mudar, mas também da vontade dos americanos de mudarem o modo como o mundo olha para a América. Com os resultados de 4 de Novembro, os EUA deram um passo na direcção dos seus aliados. Compete agora a estes darem um passo na direcção da América. Nos próximos meses vamos assistir a provocações para testar a solidez da relação transatlântica. Os provocadores vão argumentar que os Estados Unidos continuam a ser iguais, mesmo com a mudança de Presidentes. Esperemos que nessa altura aqueles que dizem que a “América de Obama” é diferente da “América de Bush” continuem a pensar da mesma maneira. Neste caso, têm razão.