João Marques de Almeida

O mundo é europeu
Diário Económico, 06|Outubro|2008

Nos tempos difíceis em que vivemos, é saudável olhar para tudo com alguma distância. Se quando tudo corre bem, a prudência avisa que não se deve embarcar em optimismos excessivos; quando muita coisa corre mal também não devemos cair num pessimismo pesado. Nos momentos de dúvidas, vale a pena olhar revisitar o passado, a nossa história. Não há história mais magnifica do que a história europeia. Foi o Renascimento que ensinou aos europeus que um dos objectivos centrais de qualquer sociedade é civilizar todos os seus cidadãos. Começou, de resto, por ensinar o significado de cidadania, e a sua importância crucial para a liberdade. "Os Discursos" de Maquiavel continuam a ser um dos melhores tratados sobre o assunto. Foi no Renascimento que se aprendeu que a educação e a cultura são cruciais para formar um cidadão civilizado. Não é por acaso que muitas das melhores Universidades europeias surgiram durante o período. Grande parte da inspiração veio da história. Foi a redescoberta de Roma e de Atenas que permitiu, em grande medida, o Renascimento. A outra parte veio do comércio.

Mas o comércio, na história europeia, foi sempre muito mais do que uma actividade económica. As relações comerciais também civilizaram a vida política e, igualmente importante, fizeram dos europeus grandes cosmopolitas. Os Descobrimentos foram o resultado do desejo (cuja força foi muito superior quer às tempestades oceânicas, como às hostilidades dos nativos) de querer conhecer e mudar o mundo. Nenhuma fronteira, geográfica ou de qualquer outro tipo, parou o destino dos europeus. E através dos Descobrimentos começou a levar-se o Renascimento a todo o mundo.

Mais tarde, as conquistas do Iluminismo aprofundaram as virtudes do Renascimento. Para os contemporâneos do Iluminismo do século XVIII, a sua idade significava um segundo "renascimento". As ideias de liberdade, de direitos, de divisão de poderes tornaram-se ainda mais fortes. O comércio continuou a reforçar o cosmopolitanismo e o universalismo dos europeus. E a ciência levou o conhecimento e as universidades a um plano ainda mais elevado. Simultaneamente, com uma energia e uma coragem admiráveis, os europeus levaram também o Iluminismo ao resto do mundo.

Os Estados Unidos foram um dos primeiros resultados (talvez aquele que tenha tido mais sucesso até hoje) da universalização da Europa. Desde o início da colonização, que a América foi vista como a terra onde se iriam cultivar as "virtudes europeias". Os Pais dos "Pais Fundadores" foram Locke, Montesquieu, Pufendorf e Vattel. Ou seja, os "Avôs Fundadores" dos Estados Unidos são europeus. Na Rússia, construiu-se um Estado e as suas instituições a falar-se francês. E mesmo a experiência soviética encontrou a sua inspiração inicial e a sua legitimidade no pensamento de um alemão, cujos mestres foram franceses e ingleses.

Veio a descolonização do século XX. Mas só territorialmente é que o mundo deixou de ser europeu. Em tudo o resto que conta, o fim dos impérios europeus não só resultou do triunfo das ideias europeias como reforçou a sua validade por todo o mundo. Politicamente, o mundo está organizado em Estados (uma construção europeia) com tudo o que isso implica em termos de instituições, organização e estratégia políticas. Economicamente, o mercado, outra admirável criação euroeia, é universal (alguns na Europa podem ter dúvidas sobre o capitalismo, mas na Ásia essas dúvidas não existem). Na ciência, os laboratórios e as universidades emergentes podem ser chineses e indianos, mas a inspiração e os métodos surgiram na Europa há alguns séculos. Mesmo a ordem social, desde a divisão entre a vida urbana e a vida rural até à organização familiar e profissional, é cada vez mais europeia.

Se aqueles europeus que abandonaram os seus países há séculos para descobrir o resto do mundo "regressassem" hoje "viriam" um mundo muito mais europeu. Ficariam certamente espantados e, provavelmente, orgulhosos. Para haver a actual globalização foi necessário que o mundo se tornasse "europeu". O triunfo universal das ideias e práticas europeias deveria tornar os europeus muito mais confiantes. Não deixaria de ser profundamente irónico que as "invenções" europeias deixassem de servir a Europa no preciso momento em que beneficiam todos os outros.