João Marques de Almeida

Obama pode perder
Diário Económico, 1|Setembro|2008

Ao contrário do que muitos diziam em Maio e Junho, em Setembro, a eleição para a Casa Branca não está decidida.

Conta-se a seguinte história sobre um concurso para uma cátedra na Universidade de Harvard. A presidente do júri, uma professora, explicou por que razão tinha votado contra uma candidata, negra e homossexual. “Se fosse mulher e negra, teria votado nela; se fosse mulher e homossexual, teria votado nela; mas mulher, negra e homossexual, é demasiado perfeito”.

Lembrei-me da história quando assistia às imagens da Convenção Democrata, em Denver, e, principalmente, quando li um inquérito onde McCain e Obama respondiam a uma pergunta sobre qual é que tinha sido o maior falhanço das suas vidas. McCain respondeu, rápida e simplesmente, “o meu divórcio”. E qualquer pessoa, mesmo quem nunca se divorciou, percebe a resposta. Obama deu uma resposta longuíssima e incompreensível. Basicamente, nunca tinha falhado e nada lhe correu mal. Não só a sua vida, como a sua família e ele próprio são exemplos de perfeição. Sempre se interessou pelas boas causas, seguiu sempre os bons valores na condução da sua vida e praticou, em qualquer circunstância, as boas acções. Como observou a professora de Harvard, será demasiado perfeito para ser verdade?

A verdade é que já muitos americanos começam a ter dúvidas sobre a “perfeição” de Obama. Aliás, a igualdade nas sondagens significa que neste momento o candidato democrata está a perder. Há uns meses, quando McCain já estava escolhido como candidato republicano e Obama e Hilary Clinton se batiam sem tréguas, quase todos diziam que as primárias democratas eram as “verdadeiras eleições” americanas. O vencedor seria o próximo Presidente norte-americano. Hoje, as dúvidas aumentaram. Com a economia americana a passar por uma crise difícil e com a impopularidade de George W. Bush, o candidato democrata deveria estar muito à frente nas sondagens. Então porque não está?

Há duas respostas possíveis. Uma seria a natureza excepcional do candidato republicano. Ora, McCain tem valor, é sério, carismático e experiente; mas não é um candidato notável. Por outras palavras, não é por causa dele que os candidatos estão empatados nas sondagens. Obama é a razão do empate. O que mostra que os americanos têm dúvidas sobre a sua capacidade para dirigir o país. E um empate nas semanas das convenções significa, na verdade, uma “derrota” para Obama e uma “vitória” para McCain. Ao contrário do que muitos diziam em Maio e Junho, em Setembro, a eleição para a Casa Branca não está decidida.

Entre os eleitores norte-americanos, todos conhecem McCain: o seu passado, as suas ideias, as suas virtudes e os seus defeitos. Em relação a Obama, aumentam aqueles que se interrogam se o conhecem verdadeiramente. Os próximos meses vão ser dominados por duas questões, ambas complicadas para o candidato democrata: Quem é verdadeiramente Obama? E estará preparado para ser Presidente dos Estados Unidos? E nada disto tem a ver com a situação internacional. O mundo, por definição, é sempre complicado; e nunca é fácil ser Presidente norte-americano. Dito de um modo mais simples, o problema não é o mundo; o problema é Obama. Bem sei que o candidato democrata inspira, excita, emociona e tem qualidades de comunicador raras. Mas não são os inspirados, os excitados e os emocionados que vão decidir as eleições. São os cépticos. Aqueles que perguntam: podemos confiar neste tipo para governar a América? O que fez até hoje, dois meses antes das eleições, ainda não é suficiente para Obama ser eleito. Os cépticos nunca confiam em alguém que é demasiado perfeito.