João Marques de Almeida

A “humilhação” da Rússia
In Diário Económico, 25|Agosto|2008

Anda por aí uma tese, defendida à direita e à esquerda, de que a Rússia tem sido “humilhada” nos últimos anos. A tese da “humilhação” serve aliás para todo o tipo de delírios analíticos. O primeiro é que os verdadeiros culpados da guerra da Geórgia são os Estados Unidos. Aparentemente, desde o fim da Guerra Fria, o grande objectivo estratégico de Washington, e dos seus aliados, tem sido “humilhar” a Rússia. “Humilhou-a” com os alargamentos da Aliança Atlântica (e da União Europeia); “humilhou-a” no Kosovo e “humilhou-a” mais recentemente na Ucrânia e na Geórgia. Ora, uma grande potência, como a Rússia, não pode ser eternamente “humilhada”; e chega um dia invade um pequeno vizinho para pôr termo à “humilhação”.

A “humilhação” começou quando, coitadinha, a União Soviética acabou. Viviam os milhões de soviéticos felizes com a sua dimensão imperial quando, subitamente, o Império caiu. Temos assim uma tese curiosa: o fim dos impérios, por mais totalitários e injustos que sejam, humilha as populações das potências imperiais. Que tal aplicar a tese a outros casos de fins de impérios. Será que os analistas nacionais (principalmente os de esquerda), que “compreendem” a “humilhação” da Rússia, também se sentem “humilhados” com o fim do Império português em 1975? Um país habituado há mais de quinhentos anos a ter territórios em quase todos os continentes do mundo, fica de repente reduzido a uma pequena parcela de uma península europeia. Seremos nós uma nação “humilhada”? E os franceses? E os britânicos? E os espanhóis? E os italianos? E os austríacos? E os turcos? Será que a Europa não passa de um continente de “humilhados”? E se um dia resolverem acabar com estas “humilhações” históricas, o que farão? Ou só os russos é que têm direito à “humilhação” e a fazer guerras por causa dessa “humilhação”?

Por mim, que discordo da tese da “humilhação”, o fim dos impérios constitui um momento de libertação, quer para os colonizadores quer para os colonizados. Percebi agora, mais de trinta anos depois do fim do Império português, que faço parte de uma minoria. Afinal, o fim dos impérios provoca grandes “humilhações”. Até 1991, os russos viviam “orgulhosos” do seu império. O facto de todas as outras nações viverem dominadas, sem liberdade e ocupadas militarmente eram apenas pequenos pormenores.

Depois, as Repúblicas Bálticas, a Polónia, a República Checa, a Eslováquia, a Hungria, a Roménia e a Bulgária, cuja libertação iniciou a “humilhação” russa, tiveram a ousadia de pedir para entrar na Aliança Atlântica e na União Europeia, agravando assim a “humilhação” da Rússia. E, vejam bem, Washington e Bruxelas aceitaram os pedidos, sem se preocuparem com os efeitos que tais decisões poderiam ter no “orgulho imperial” russo. Para evitar a “humilhação” da Rússia, dever-se-ia ter definido a seguinte regra: todos os países onde existiram bases do Exército Vermelho e economias socialistas nunca poderão aderir à NATO e à União Europeia. Teríamos hoje, certamente, uma Europa mais instável, menos próspera, menos democrática e mais dividida. Mas uma Rússia “orgulhosa” e “não humilhada”. O que, para muitos, vale tudo o resto.

Insatisfeitos, Washington e Bruxelas tiveram o atrevimento de defender uma pequena população muçulmana, os Kosovars, de uma política de agressão violenta de um ditador sérvio. E o resultado foi a independência do Kosovo. Mais uma vez, a principal motivação dos países ocidentais foi “humilhar” a Rússia. E os russos têm uma ligação tão grande à Sérvia que sentiram a separação do Kosovo como se fosse uma perda da própria Rússia. Podemos acrescentar mais um ponto à tese da “humilhação”: uma perda territorial de um país com ligações históricas a uma potência imperial aumenta a “humilhação” dessa potência. Será que todos os países muçulmanos, de Marrocos ao Paquistão e à Malásia, ficaram “humilhados” quando Timor se tornou independente da Indonésia? Se ficaram, anda muita “humilhação” por esse mundo fora. Eu fiquei esclarecido: a “humilhação” serve para justificar guerras de grandes potências contra pequenos vizinhos muito mais fracos. Teremos certamente um mundo muito mais pacífico e justo do que aquele da maldita “hegemonia” ocidental.