João Marques de Almeida

A Direita e a Europa
Diário Económico, 21|Julho|2008

Um enfraquecimento da UE e das instituições europeias acentuará as diferenças de poder entre os países europeus.

A Europa é o tema sobre o qual discordo com muitos dos meus amigos da direita mais liberal. Concordamos sobre muita coisa, desde o modo como olhamos para a esquerda, até à aliança com os Estados Unidos, o apoio a Israel e passando pela defesa da economia de mercado e do capitalismo. Com a Europa, começam as discussões. Compreendo a desconfiança em relação a uma possível tendência centralizadora e burocrática que por vezes a construção europeia mostra. Também entendo a oposição aos que falam em nome da Europa contra os Estados Unidos. No entanto, as correntes centralizadoras e anti-americanas são claramente minoritárias nos dias que correm. Basta olhar com atenção para as políticas dos principais governos europeus.

Há ainda uma razão mais romântica que os faz enamorarem-se pelo eurocepticismo: a leitura do Spectator e a atracção pelo conservadorismo britânico. Eu também concordo com algumas ideias dos melhores pensadores conservadores. Mantenho, porém, duas regras absolutamente sagradas. Nunca aplico as ideias conservadoras à Europa e, acima de tudo, tenho sempre presente que Portugal não é o Reino Unido. O que faz sentido para os britânicos, muitas vezes não faz sentido para os portugueses.

Comecemos com a história. Há uma diferença fundamental entre os dois países. O Reino Unido não precisou da integração europeia para se tornar uma democracia e uma economia de mercado. É um dos poucos países europeus que foi sempre uma democracia capitalista durante o século XX. A integração europeia foi, acima de tudo, uma escolha estratégica e não uma opção de transformação política. Neste sentido, a história explica o cepticismo britânico em relação a certas ideias europeias. Pelo contrário, Portugal só se tornou uma democracia pluralista e de mercado no final dos anos de 1970, início dos anos de 1980. Não só a perspectiva de aderir à Comunidade Europeia foi decisiva para o início da transição democrática, como a participação na União Europeia tem sido muito importante para a consolidação da democracia e do capitalismo. Neste momento, a Europa continua a ser a maior aliada daqueles que percebem a importância crucial das reformas para o nosso país. Uma sociedade civil mais forte, mais pluralismo político e cultural, mais liberdade económica, mais abertura, um Estado de direito melhor, tudo isto passa pela Europa. Sei que não é suficiente, como demonstram os últimos anos, mas continua a ser necessário. Estamos num momento crítico em relação à capacidade de Portugal manter a opção estratégica que iniciou na década de 1980. Seremos ou não um país cada vez mais “europeu”? Toda a narrativa política nacional dos últimos trinta anos tem sido de repúdio pelo “orgulhosamente sós” e a favor da integração no “Ocidente” e na “Europa”, com todos os benefícios decorrentes para os portugueses. Se não formos capazes de impedir um novo afastamento da Europa, embora sem orgulho, voltaremos a estar sós. O que seria o pior cenário para qualquer português a quem os valores liberais dizem alguma coisa.

Se a história nos leva a olhar para a Europa de um modo diferente ao dos britânicos, a dimensão estratégica afasta-nos ainda mais dos nossos velhos aliados. A integração europeia criou a ordem política onde, em toda a história da Europa, os países são mais iguais (ou menos desiguais, como quiserem). Esta situação beneficia antes de mais os médios e pequenos Estados, como Portugal. Um enfraquecimento da União Europeia e das instituições europeias acentuará as diferenças de poder entre os países europeus.

Voltaríamos à situação de concertos das maiores potências e às alianças desiguais. Ou seja, Portugal perderia muito mais do que um país como o Reino Unido.

Tal como muitos meus amigos, também me divirto a ler o “Spectator”. Mas nunca o levo demasiado a sério. Seria no mínimo bizarro que o levasse mais a sério do que ele se leva a si próprio, principalmente quando discute a Europa.