João Marques de Almeida

Os “anti-liberais”
Diário Económico, 05|Maio|2008

O que levará muita gente a olhar para o liberalismo como se fosse a versão do “fascismo” no século XXI?

Cheguei a Lisboa, vindo de Bruxelas, e encontrei polémicas sobre o liberalismo, nos partidos de centro-direita. No PSD, um dos candidatos declarou-se “liberal” e logo provocou reacções de muitos, garantindo que o partido nunca foi liberal (apesar de já ter pertencido à família dos partidos liberais do Parlamento Europeu e de muitos dos seus fundadores terem pertencido à “ala liberal” do antigo regime), que sempre foi e será “social-democrata” ou então, como disseram outros, não tem orientação ideológica. No CDS, a tentativa de se fazer uma “ala liberal” falhou; os seus promotores não conseguiram sequer 300 assinaturas. Para quem sempre votou nestes partidos, e se considera liberal, não haverá situação mais próxima do desespero. Não sendo militante de nenhum dos partidos, não tenho qualquer tipo de intervenção nas questões internas, mas como eleitor e observador da vida política nacional e europeia, interesso-me pelas clarificações ideológicas dos partidos políticos.

O que levará muita gente a olhar para o liberalismo como se fosse a versão do “fascismo” no século XXI? Lamento dizê-lo mas esta posição mostra que o problema reside com o nosso país e não com o liberalismo. A caricatura que anda por aí sobre o “liberalismo” identifica-o com os “ricos”, com as “elites”, com “privilégios”. É por isso que a maioria daqueles que querem ganhar eleições fogem do “liberalismo”; têm medo de serem vistos como representando os “ricos” e os “privilegiados”.

Na sexta-feira à noite, fiquei mais tranquilo. Boris Johnson ganhou as eleições de Londres, apesar de dizer que segue a versão liberal do conservadorismo, herdada da senhora Thatcher. O liberalismo não serve para Portugal, mas serve para Londres. Pus-me, depois, a pensar no resto da Europa nos últimos anos. O PP espanhol governou oito anos, período de grande prosperidade em Espanha, e o seu líder nunca escondeu a suas orientações liberais na economia (continua de resto a dizê-lo em conferências pelos quatro cantos do mundo). O liberalismo não serve para Portugal, mas serve para Espanha. Em França, Sarkozy foi eleito há um ano, afirmando-se claramente como um liberal. O liberalismo não serve para Portugal, mas serve para França. Na Alemanha, tendo sentido o “socialismo real”, a senhora Merkel liberalizou a democracia-cristã da CDU e chegou a Chanceler. O liberalismo não serve para Portugal, mas serve para a Alemanha. Na Irlanda (lembram-se quando andávamos todos fascinados com o “milagre irlandês”?), o socialismo e a social-democracia não governam. Os dois partidos que se vão alternando no poder são claramente liberais no plano económico. Os irlandeses não se queixam. O liberalismo não serve para Portugal, mas serve para a Irlanda. Nos países escandinavos, nas admiradas Dinamarca, Finlândia e Suécia, todos os governos têm partidos liberais no governo; e nos dois primeiros são os partidos maioritários. O liberalismo não serve para Portugal, mas serve para a Escandinávia.

Mais uma vez, como aconteceu durante grande parte do século XX, a Europa está errada e Portugal está “orgulhosamente certo”. Em grande medida, o “anti-liberalismo” que aparentemente está na moda em Portugal resulta de um duplo fracasso. Por um lado, a sociedade portuguesa é menos próspera e menos desenvolvida do que a maioria das europeias. Como demonstra a Europa de hoje, quanto mais desenvolvida mais liberal é uma sociedade. Por outro lado, a integração europeia deixa muito a desejar na cultura e nas doutrinas políticas, principalmente nos partidos de centro-direita (se ainda podemos usar o termo em Portugal). Estão pouco integrados nas suas famílias políticas europeias. Neste aspecto, os partidos de esquerda são muito mais internacionalistas no seu pensamento político.

Há ainda outro ponto curioso. Olhemos de novo para os candidatos à liderança do PSD. Todos eles querem reforçar a “sociedade civil”, dar mais poder aos “cidadãos e à iniciativa privada”, “menos e melhor Estado” e, obviamente, mais “justiça social” e menos “privilégios”. São as ideias centrais de qualquer programa liberal. Não é o socialismo que reforça a “sociedade civil” ou a “iniciativa privada”, ou que reduz o peso do Estado. E se olharmos para a história da Europa, ainda o socialismo e a social-democracia estavam nas cabeças dos seus fundadores e já os movimentos liberais lutavam por mais justiça social, combatiam privilégios e resistiam à intolerância.

Um último ponto sobre a “social-democracia”. A social-democracia não é mais do que o caminho do socialismo para o liberalismo. De fazer uma síntese entre o melhor do socialismo e o melhor do liberalismo. Por outras palavras, é a liberalização do socialismo. Como, de resto, os percursos dos partidos sociais-democratas dos países do norte da Europa o demonstram. Pode ser-se liberal sem se ser social-democrata. Mas não é possível ser-se social democrata sem se ser liberal. Dito de outro modo: não há social-democracia sem liberalismo. Está escrito na história da Europa do século XX.