João Marques de Almeida

“Entente formidable”?
Diário Económico, 31|Março|2008

O que está em causa é saber se a França e o Reino Unido serão capazes de criar uma aliança externa. E é aqui que a Europa poderá ganhar.

A visita do Presidente francês a Londres foi mais do que um sucesso: pode marcar uma mudança importante na política europeia e ocidental. Num discurso poderoso perante as Câmaras dos Comuns e dos Lordes, Sarkozy disse duas coisas decisivas. Em primeiro lugar, propôs uma parceria entre os dois países não só para ajudar a liderar a Europa mas também para agir na política mundial. Uma proposta inédita na história da V República francesa e que afasta o actual Presidente de todos os seus antecessores. Em segundo lugar, Sarkozy apelou a que o Reino Unido estivesse no centro da política europeia. Em relação aos britânicos, os seus antecessores oscilaram sempre entre duas posições: De Gaulle impediu a sua adesão à Comunidade Europeia; e Mitterrand e Chirac tudo fizeram para empurrar Londres para uma posição marginal. Mais um sinal de mudança radical.

Sem ter atingido o mesmo nível de sedução, o primeiro ministro britânico respondeu de um modo muito positivo. Mostrou-se aberto a construir uma ‘entente formidable’, e não apenas ‘amicale’, e reconheceu que a União Europeia é decisiva em áreas como a segurança, a energia, o desenvolvimento, a imigração e a luta contra as alterações climáticas. Ou seja, nestas áreas, isolado, o Reino Unido pouco conseguirá fazer. Uma alteração significativa, não só para a política britânica, mas acima de tudo para Gordon Brown.

O encontro no Estádio do Arsenal foi uma iniciativa brilhante, em termos de simbolismo político. E, na política europeia, os símbolos contam; basta olhar para a história da relação franco-germânica. O Arsenal é o clube mais “francês” da liga inglesa e, simultaneamente, a equipa inglesa mais popular em França. É um símbolo forte da integração franco-britânica. Há cerca de meio milhão de franceses a viver em Londres e os britânicos constituem a maior nacionalidade estrangeira com casas em França. Como recordou Sarkozy, “as nossas sociedades não esperaram por nós para se integrarem”.

No entanto, uma visita, mesmo quando é triunfante, não chega para mudar posições políticas. É necessário que haja alterações concretas e substanciais, as quais terão que se impor a interesses divergentes, que não vão desaparecer, e a desconfianças históricas entre os dois países. Há, por exemplo, um obstáculo cultural, que foi visível durante a Cimeira. Muitas vezes, britânicos e franceses reconhecem que têm interesses comuns, mas depois não concordam com as respostas. Os franceses falam logo de “políticas europeias”, “novas instituições e documentos”, o que deixa os britânicos profundamente desconfiados. Estes gostam de iniciativas concretas, que apresentem resultados, o que para os franceses muitas vezes não chega.

Há três questões que vão mostrar se esta Cimeira mudou alguma coisa. Em primeiro lugar, terá que haver até ao fim do ano, e principalmente durante a Presidência francesa, iniciativas concretas. As áreas da energia nuclear, da imigração e de equipamentos militares parecem ser as privilegiadas. Vamos ver o que vai acontecer. Em segundo lugar, os encontros regulares entre funcionários dos dois países, ministros e chefes de governo e de Estado serão decisivos. Britânicos e franceses só serão capazes de construir uma ‘entente formidable’ se conseguirem comunicar com rapidez e regularidade.

Por fim, será o plano externo a demonstrar se a parceria franco-inglesa vai funcionar. Nos últimos cinco anos, foi a política mundial e a segurança internacional que mais afastou os dois países. O que está em causa é saber se a França e o Reino Unido serão capazes de criar uma aliança externa. E é aqui que a Europa poderá ganhar com a aproximação entre os dois países. Em Londres, Sarkozy e Brown falaram muito da “Europa global”. Acertaram no ponto essencial. Se os primeiros cinquenta anos da integração europeia foram sobre a reorganização política e económica do continente europeu, o futuro será sobre o que a Europa pode fazer (ou não fazer) no mundo. A Alemanha consegue liderar no plano interno. Mas, por razões históricas (que vão para lá do século XX), não o consegue fazer no plano externo. A construção de uma “Europa global” depende, em grande medida, da existência de uma ‘entente formidable’.