João Marques de Almeida

As eleições espanholas e Portugal
Diário Económico, 17|Março|2008

A maioria dos observadores olhou para os resultados das eleições espanholas e chegou a duas conclusões. Por um lado, o PSOE ganhou porque garantiu o famoso eleitorado do “centro”. Por outro lado, a derrota do PP demonstrou a outra suposta verdade eterna das democracias europeias: a derrota é o destino fatal daqueles que se viram demasiado para a direita. As duas conclusões estão erradas; não passam de lugares-comuns que podem ser apresentados como “conclusões”, sem se fazer um grande esforço de análise. Os pontos mais interessantes das eleições vão precisamente na direcção oposta das “conclusões”.

Comecemos pelo PSOE. Ao contrário do que se diz, os socialistas espanhóis ganharam as eleições à esquerda e não ao “centro”. Foram buscar votos às forças da extrema-esquerda, quer à Esquerda Unida, como à esquerda radical catalã. Ao “centro”, perderam cerca de 400 mil votos para o PP. Aliás, com a diminuição dos votos à sua esquerda, se o PSOE tivesse conquistado o eleitorado do “centro” teria alcançado a maioria absoluta. Ao contrário de Filipe Gonzalez e de José Maria Aznar, Zapatero não conseguiu a maioria absoluta na sua segunda vitória eleitoral. Os seus antecessores é que ganharam ao “centro”.

Esta situação do PSOE é curiosa. Sem abandonar a via reformista e “liberal” da economia, herdada de Gonzalez e de Aznar, conquistou votos entre a extrema-esquerda. Alguns argumentam que o seu progressismo radical em matérias de costumes foi suficiente para mobilizar a esquerda. Talvez tenham razão, mas julgo que, antes de mais, a vitória dos socialistas foi garantida na Catalunha e no País Basco, onde o PP está muito fragilizado e o PSOE continua a ser, em ambas as regiões, um dos dois maiores partidos. O que demonstra que a política de descentralização dos socialistas, mesmo causando alguma insatisfação em Castela, convenceu os Catalães e os Bascos. E foi suficiente para ganhar as eleições, mesmo perdendo votos ao “centro”.

O exemplo de Espanha levanta uma questão ao PS português: como é que poderá satisfazer a sua ala mais à esquerda sem perder votos ao “centro”? Como não se prevê que a extrema-esquerda nacional transfira o seu voto para os socialistas, do mesmo modo que fizeram os seus camaradas espanhóis, se o PS perder ao “centro” não renovará a sua maioria absoluta.

Passemos agora ao PP. Apesar de ter uma imagem muito conservadora e de passar a percepção que está posicionado muito à direita, por exemplo num editorial sobre as eleições espanholas o “Financial Times” referiu-se à “direita pré-moderna”, a verdade é que os populares aumentaram a sua votação ao centro. Se há uma coisa de que o PP não tem medo é de se assumir como um partido de centro-direita, conservador em questões políticas e culturais e liberal na economia. E foi sempre assim desde que emergiu, nos anos de 1980, como a única força política da direita espanhola. O que não impediu duas vitórias eleitorais e uma maioria absoluta. Mesmo nas eleições em que perde, consegue aumentar a votação ao “centro”, o que não deixa de ser extraordinário.

Foi na Catalunha e no País Basco que o PP perdeu as eleições. E dificilmente conseguirá ganhar no futuro se não recuperar nessas duas regiões. O PP enfrenta um problema semelhante ao dos conservadores britânicos, que para regressarem ao poder também precisam de recuperar votos na Escócia e no País de Gales. O grande desafio para o PP nos próximos quatro anos será, em relação à questão das autonomias, propor políticas que os catalães e os bascos aceitem.

Finalmente, o exemplo do PP constitui também uma lição para o PSD. Em grande medida, a força de um partido como instituição política vê-se na hora das derrotas. Os grandes partidos não são só “grandes” quando estão no governo. Em democracia, perder não diminui; é simplesmente o resultado da vontade popular exercida livremente. Quem entende esta verdade fundamental da democracia percebe a responsabilidade de estar na oposição (o que significa um trabalho de quatro anos). Mais: quer liderar o partido na oposição porque sabe que só assim é que um dia estará preparado para governar. Já que no nosso país se olha tanto para Espanha, vejam o exemplo dos líderes do PP. Aznar esteve sete anos na oposição antes de chegar ao poder e Rajoy prepara-se para estar oito anos.