João Marques de Almeida

A democracia na América
João Marques de Almeida

Publicado no Diário Económico, 14|Janeiro|2008



Hoje de manhã (sábado), assisti a um debate na BBC a propósito da cobertura mediática das eleições norte-americanas pelas televisões e jornais europeus. O debate foi o resultado de queixas de espectadores britânicos. “Vamos passar o ano de 2008 a ouvir falar das eleições americanas?” Perguntou um deles. Haverá, obviamente, altos e baixos na atenção que os europeus darão ao que se passa no outro lado do Atlântico. Mas o ano que agora começou será certamente dominado pela eleição do presidente norte-americano. Como foi dito no debate, está a eleger-se o político mais poderoso do mundo.

Podemos tirar já algumas conclusões sobre as primárias e sobre a política americana. Em primeiro lugar, é impossível prever não só quem será o próximo Presidente mas até quem serão os candidatos, republicano e democrata. Há quatro candidatos que podem ser eleitos: Rudy Giuliani, John McCain, Hillary Clinton e Barak Obama. A incerteza resulta do estado em que se encontram os dois grandes partidos americanos. Entre os republicanos, os candidatos que têm mais possibilidades de ganhar as eleições, McCain e Giuliani, enfrentam uma grande oposição no interior do partido. Em muitas matérias, são ambos excessivamente liberais para o conservadorismo dominante nos republicanos, principalmente em questões sociais. No partido democrata, temos a situação oposta: o candidato favorito dos militantes, Hilary Clinton, é o que tem menos possibilidades de vencer em Novembro. Como mostram as sondagens e as eleições de New Hampshire, Obama consegue o apoio de muitos independentes e mesmo de algum eleitorado próximo dos republicanos. Aliás, as simpatias de muitos comentadores de centro-direita por Obama são evidentes (até o bastião do “neo-conservadorismo”, o “Weekly Standard”, o elogia).

A diferença entre as preferências dos militantes dos dois partidos e o eleitorado independente permite uma segunda conclusão. A maioria dos americanos, os eleitores não-filiados, deseja um Presidente que saiba construir consensos e que não governe numa lógica de conflito permanente. Isto não significa o fim dos debates e das divergências, o que de resto é impossível nos Estados Unidos, mas um período de tréguas após dois Presidentes e dezasseis anos que provocaram grandes divisões políticas, sociais e culturais. No entanto, os dois partidos, principalmente as suas bases, continuam muito radicalizados e isso pode reflectir-se nas suas escolhas. Desconfio que, neste caso, os democratas são os que enfrentam os maiores problemas. A escolha será entre o candidato que representa a oposição à “América de Bush”, Hillary Clinton, e um candidato com possibilidades de ser eleito, Obama. Se os democratas não resistirem às amarguras acumuladas durante oito anos e escolherem o primeiro, arriscam-se a perder em Novembro. Perante um eleitorado com vontade de ultrapassar os tempos de radicalização, é duvidoso que Hillary Clinton consiga bater McCain ou Guiliani.

Há ainda uma terceira conclusão a notar. Ao contrário do que muitos pensam na Europa, os Estados Unidos não são um país conservador, no sentido negativo do termo. Aliás não há nada mais irritante do que ver os apresentadores de televisão na Europa, com aquele ar superior que gostam de ter quando falam da “América”, perguntarem aos entrevistados: “acha que a América está preparada para ter um Presidente negro ou uma Presidente mulher?” Quando olhamos para os palácios e as residências oficiais nas capitais europeias, o que mais vemos é precisamente Primeiro-ministros e Presidentes negros e mulheres. A arrogância e o cinismo não têm limites. A maioria dos americanos não olha para Obama como um negro ou para Hillary Clinton como uma mulher, mas como candidatos americanos. Se não ganharem é por outras razões. Aliás, os Estados Unidos não temem o futuro nem a mudança. Ao contrário de outras sociedades que são incapazes de largar o passado. Isso é que é conservadorismo (com c pequeno, naturalmente).

Por fim, um ponto divertido. Há umas semanas, na televisão portuguesa, vi um “apoiante de sempre do Dr. Mário Soares”, perante o comentário de que muitas sondagens dizem que McCain derrotaria Hillary Clinton, afirmar “McCain é muito velho para ser eleito”. As contradições humanas são uma delícia, principalmente em tempos de eleições.