João Marques de Almeida

A revolta das elites
Diário Económico, 8|Outubro|2007

A minha tese é muito simples: as ideologias políticas, e em particular o liberalismo, são a melhor defesa contra o populismo.

O meu argumento apoia-se em duas ideias. A primeira é de que a democracia reforça inevitavelmente as tendências populistas. É o preço a pagar pela “decisão popular”, mas ainda assim é melhor que qualquer forma de regime autoritário. Partindo de Ortega y Gasset, poderíamos dizer que “em toda a parte se assiste aos lamentos do homem-elite”. Não há nada que assuste mais o ‘homem-elite’ do que as “massas”, o “povo”, principalmente nas suas manifestações colectivas. Por isso, é natural que haja sempre uma profunda desconfiança daqueles políticos que sabem lidar com o “povo”, principalmente aqueles que nunca ouvem o “homem-elite”. O nome que o “homem-elite” europeu arranjou para este animal político é “populista”. Mas note-se que todos aqueles que sempre souberam lidar como o “povo”, mas ao mesmo tempo ouviam o “homem-elite” nunca foram “populistas”, mas sim “líderes políticos”. 

Estas linhas servem para fazer um simples ponto: o “populismo” é um assunto muito sério, mas vamos discuti-lo com seriedade e não apenas usá-lo como uma forma de diminuição daqueles de quem discordamos politicamente. Como sempre acontece em temos de tormenta, é tão fácil dividir os políticos em “bons”, os que não são “populistas”, e “maus”, obviamente os “populistas”, e depois usar as expressões de acordo com os nossos interesses e preferências. Não deixa de ser triste ver alguns “homens-elite” caírem também eles nestas formas de “populismo”. O que só demonstra que o perigo do populismo é uma presença permanente nas democracias e ninguém está imune.

A questão essencial é a seguinte? Como é que é possível gerir a relação próxima entre a democracia e o populismo? Por outras palavras, como é que se defende a democracia representativa contra a democracia participativa? Chegamos aqui à segunda ideia do meu argumento: o populismo e os apelos à democracia participativa são o resultado da indefinição ideológica e do enfraquecimento do discurso e das ideias liberais. O populismo cresce sempre onde há indefinição ideológica. As ideologias políticas têm um papel extremamente positivo: estabelecem limites, em termos de valores e princípios, os quais não devem ser ultrapassados. Quando vejo, por toda a Europa, o coro de vozes a proclamar o fim das ideologias, o triunfo dos “consensos” e que as eleições se ganham ao “centro”, fico sempre preocupado. Um discurso político sem referências ideológicas é um discurso sem limites éticos. E a “legalidade democrática” está longe de ser suficiente como limite à demagogia e ao populismo. A competição política pelo “centro” é o maior dos perigos. Acabará, fatalmente, em formas de nacionalismo demagógico, no fim dos programas políticos apoiados em doutrinas substanciais e na simples luta pelo poder. O que me espanta é que aquelas pessoas que andam há anos a celebrar o fim das ideologias e que os partidos políticos não devem ter posicionamentos políticos e ideológicos claros se assustem agora com o “populismo”. Não perceberam o que se estava a passar?

E chegamos, por fim, ao liberalismo. A história da Europa, desde a Revolução Francesa, é em grande medida a história do conflito entre o colectivismo, e o reforço constante do poder do Estado, e a liberdade e os direitos individuais, assentes em sociedades civis fortes e garantidos por instituições políticas. O liberalismo é a filosofia da liberdade, dos direitos individuais, dos limites ao poder do Estado, da sociedade civil, das instituições políticas e da democracia representativa. Em suma, é a filosofia de tudo o que está ameaçado pelo populismo. Mais uma vez, o desabafo é inevitável: atacam o liberalismo todos os dias, e depois em dias de eleições revoltam-se com o populismo. A minha tese é, como se nota, muito simples: as ideologias políticas, e em particular o liberalismo, são a melhor defesa contra o populismo. As ideologias são indispensáveis para a educação, para a consciência política e para se criarem elites políticas e não apenas, “homens-elites” isolados. E, já agora, líderes políticos que tenham a coragem de fazer o que disse Burke: “os representantes eleitos têm uma grande responsabilidade: defender os interesses do povo, e para o fazerem devidamente têm por vezes que impor os seus juízos às opiniões populares”.