João Marques de Almeida

Liberdade, monges e China
Diário Económico, 01|Outubro|2007



Pequim e Nova Deli começam a perceber que o estatuto de grande potência exige responsabilidade política.

A semana que passou foi recheada de acontecimentos e símbolos que dizem muito sobre o mundo em que vivemos. O Presidente do Irão foi a Nova Iorque e discursou na Universidade de Columbia. Como seria de esperar, houve protestos contra a iniciativa. Constituiu, no entanto, um exemplo de tolerância e de liberdade. Como afirmou um porta-voz da Casa Branca, “ficamos muito contentes com o facto de o Presidente do Irão ter toda a liberdade para discursar no nosso país; só temos pena que o nosso Presidente não possa fazer o mesmo no Irão”. Das comparações que se fazem entre os presidentes norte-americano e iraniano, só se pode tirar uma conclusão: são feitas por pessoas que não dão importância à liberdade. O Presidente do Irão demonstrou também que não distingue entre a verdade e a mentira. Disse, com evidente descaramento, que as mulheres do Irão são as mais livres em todo o mundo. Mostra como devemos levá-lo a sério quando garante que o Irão não quer construir armas nucleares.

Ao mesmo tempo, na Birmânia, assistimos a marchas pacíficas de monges contra um governo que tiraniza e condena à extrema pobreza os cidadãos do país. Numa reunião do Conselho de Segurança, em Nova Iorque, a China disse que não havia nenhuma crise internacional e portanto a ONU não deveria ter alguma iniciativa que condenasse o regime da Birmânia. Por outro lado, os chineses manifestaram um claro desagrado com o uso da violência por parte do governo da Birmânia. O comportamento ambíguo de Pequim demonstra, antes de mais, que a protecção aos amigos, independentemente do seu comportamento político, faz parte das suas doutrinas de política externa. O resultado é a redução do Conselho de Segurança à impotência completa.

Entendo as virtudes de uma ordem mundial apoiada no direito e em organizações internacionais. Mas há limites e acima de tudo não podem ser elevados à categoria de objectivos; terão que ser vistos apenas como instrumentos. Enquanto se discute no Conselho de Segurança, o Irão vai construindo as suas armas nucleares para um dia ameaçar todos os seus vizinhos. No Sudão as pessoas continuam a morrer. E na Birmânia, os mosteiros são atacados e os monges presos. Quando isto acontece, com frequência, é necessário reflectir e essa reflexão terá que fazer parte de qualquer processo de reforma das Nações Unidas.

É igualmente tempo de os países ocidentais pensarem no dilema que enfrentam. As suas populações, as opiniões públicas e a classe política ficam indignadas quando assistem a desastres humanitários, como em Darfour, ou a casos de repressão política, como na Birmânia. No entanto, ninguém está disposto a pagar os custos das acções consequentes com a indignação sentida. O cinismo que leva a afastar valores, como a liberdade, da diplomacia ou a negar a sua universalidade não serve e, a prazo, afectará irremediavelmente a unidade política do Ocidente e da própria Europa. Por outro lado, é impossível recorrer à força militar ou mesmo a sanções cada vez que um governo usa a violência de um modo indiscriminado contra a sua população. Seria o caminho para a desordem e a instabilidade permanentes. As capitais ocidentais vão ter que pensar na melhor maneira de lidar com este dilema.

Uma das soluções passa pela capacidade diplomática de conseguir envolver potências como a China e a Índia na gestão da ordem internacional. Não é fácil, mas não há outro caminho. E nota-se mesmo uma evolução positiva em Pequim e em Nova Deli. Começam a perceber que o estatuto de grande potência exige responsabilidade política. Sobretudo, no caso da China, já entende que quando os países ocidentais defendem a “promoção da democracia” não é simplesmente pela vontade e pelo prazer de “espalhar os nossos valores para mudar os outros”. Instituições sólidas, estado de direito e regimes políticos responsáveis são importantes quando se investe e se pretende trabalhar em países estrangeiros. Ao tornar-se numa “potência comercial”, e deixar de ser simplesmente um “império continental”, Pequim começará a compreender a verdade que os europeus aprenderam ao longo dos séculos. Nada como investir em África para os chineses também começaram a perceber que há certos “valores ocidentais” que devem mesmo ser universais.