João Marques de Almeida

A Guerra dos 60 anos
Diário Económico, 24|Setembro|2007

Andam todos a discutir o “Médio Oriente” sem terem lido as “instruções”. É mau, muito mau.

Desde 1948, quando é que o Médio Oriente esteve em paz? Nunca. A “guerra do Iraque”, a “guerra do Líbano” são simplesmente capítulos da grande guerra do Médio Oriente que começou em 1948, ano da criação do Estado de Israel. Convém fazer este ponto para combater a tese de que a ocupação da Palestina por Israel e as políticas expansionistas dos Estados Unidos são as duas principais causas dos conflitos e da violência na região.  Aliás, esta “tese”, aceite por muitos, não resiste à primeira análise histórica. Deixando de lado os defensores daquelas ideologias que são piores para a verdade do que a mentira (como dizia Nietzsche), há ainda muitos que aceitam a “tese”. E são pessoas que pensam bem, que são sensatas e sérias. O que mostra que existe um grave problema nas sociedades ocidentais: o desaparecimento do sentido histórico; ou seja, da preocupação de entender o presente através do estudo e do conhecimento do passado. Ninguém é obrigado a “saber” história. O que se deve exigir, e se perdeu, é a disposição para se estudar a história quando se deseja entender e discutir um determinado assunto. Um exemplo simples serve para se perceber o estado a que se chegou. Ninguém consegue montar “aquelas coisas” que se compram no Ikea sem se ler as instruções. Pois andam todos a discutir o “Médio Oriente” sem terem lido as “instruções”. É mau, muito mau.

Há três causas que explicam a “guerra dos 60 anos”. A primeira foi a criação de Israel. Não foi a ocupação da Palestina que “causou” a “guerra dos 60 anos”. Pelo contrário, a ocupação é consequência da guerra que começou em 1948, precisamente porque nenhum país árabe aceitou a legitimidade do Estado de Israel. E este continua a ser uma dos problemas centrais em finais de 2007. Todos aqueles que pretendem fazer a “paz”, de Washington às capitais europeias, deviam convencer os líderes dos países árabes a combater, e deixar de estimular, o discurso que afirma a ilegitimidade de Israel. Como é que é possível fazer-se a “paz” nas cimeiras internacionais, se se diz todos os dias em casa que o Estado de Israel não é legítimo?

O processo de construção de Estados independentes após o colapso do Império Otomano é a segunda causa. No Ocidente, após 1945, quase todos estiveram concentrados na Guerra Fria, e com inteira razão. Prestaram pouca atenção, no entanto, ao outro grande problema da política mundial: como criar uma ordem internacional pós-imperial. Ou seja, como construir Estados legítimos e estáveis nas antigas colónias dos impérios europeus (incluindo o Império Otomano). E se a Guerra Fria já acabou, a construção dos “novos Estados” continua a ser um dos problemas centrais do nosso “mundo global”. A parte mais oriental da Ásia, entre a Índia e a Indonésia e o Japão, resolveu o problema de um modo satisfatório, conciliando-o mesmo, nalguns casos, com a democracia e o desenvolvimento económico. Mas o “grande Médio Oriente” e África fracassaram e a construção de Estados continua a ser o grande desafio das duas regiões.

No Médio Oriente, as vias nacionalista e socialista falharam. Nuns casos, foram incapazes de acabar com divisões religiosas ou étnicas, acabando mesmo por agravá-las. Noutras situações não conseguiram um mínimo de desenvolvimento económico ou social. A emergência de regimes ditatoriais fortemente centralizados e violentos foi o único ponto comum. O resultado foi a falta de legitimidade política; a solução foi o crescimento do radicalismo islamista. É aqui que estamos neste momento.

A terceira e última causa é a rivalidade estratégica entre as potências regionais. Desde 1948, além do conflito com Israel, os Estados árabes e o Irão têm estado permanentemente em competição militar e em guerra pela hegemonia na região. A tentativa de liderar o combate contra a “entidade sionista” e a aspiração da unidade árabe ou muçulmana apenas reforça a legitimidade das rivalidades estratégicas. Israel, com a cicatriz terrível deixada pelo Holocausto na Europa, e a importância do petróleo tornaram o Médio Oriente numa região fundamental para o Ocidente.

Por razões que não é possível discutir agora, a Administração norte-americana acreditou que seria possível seguir uma estratégia para resolver os grandes problemas regionais e reforçar a legitimidade política nos Estados pós-imperiais. O desastre dos últimos quatro anos não foi a “guerra do Iraque”. Foi a incapacidade dos Estados Unidos de fazerem a “paz” e acabarem com a “guerra regional”. As potências europeias já tinham mostrado a sua insuficiência estratégica na região, em 1948, quando não foram capazes de impedir o início da “guerra dos 60 anos”. Eis a tragédia do Médio Oriente desde 1948: por um lado, é demasiado importante para que se permita os seus países terem uma guerra decisiva; por outro lado, as potências ocidentais não têm poder suficiente para impor a paz.