João Marques de Almeida

Novo “fardo do homem branco”
In Diário Económico, 30|Julho|2007

Na “aldeia global” em que vivemos, há uma nova minoria de quem ninguém fala: o homem branco heterossexual e orgulhoso da civilização ocidental. Numa época em que se dá atenção a todo o tipo de minorias, esta distracção explica-se facilmente. A história de todas as outras “minorias” é a história da “libertação” do domínio do “homem branco heterossexual e ocidental”. “Nós” somos os “tiranos” da história moderna.

Comecemos com os homossexuais, essa “minoria” perseguida durante séculos, apesar de durante toda a história terem existido reis, presidentes, governantes, generais, diplomatas, professores, escritores, músicos, artistas e sabe-se lá que mais que sempre se apaixonaram por outros homens. Subitamente, de há umas décadas para cá, tornaram-se uma “minoria”. O problema começou quando as nossas sociedades perderam uma das suas principais sabedorias seculares: a vida sentimental (e sexual) é absolutamente privada. Quando invadiu o domínio público, começaram as complicações. As pessoas sentiram-se obrigadas a “assumirem-se” e os preconceitos surgiram por todo o lado. Rapidamente, se passou do “direito à diferença” (ainda me lembro muito bem desta expressão e não sou muito velho) para o “direito à igualdade”. Quando se chegou ao domínio do combate político, foi necessário construir uma “minoria a lutar pela sua libertação” contra uma “maioria tirana”. Esta evolução criou uma situação absurda: a “homossexualidade” passou a ser uma dos traços definidores da identidade individual dos “homossexuais”. Há obviamente outras características muito mais importantes para definir alguém do que a sua “orientação sexual”. Mas, infelizmente, esses tempos já se foram.

Passemos às mulheres. Apesar de constituírem cerca de metade da população ocidental, também se transformaram numa “minoria”. Extraordinário, não é? E a história oficial é igualmente clara como a água: durante séculos metade do “ocidente”, aquela constituída pelo “homem branco”, dominou a outra metade, a “mulher branca”. Os tempos estão a mudar, mas sem a rapidez suficiente; por isso, os executivos europeus empenham-se em legislação que acabe com o ‘gender gap’. As livrarias das cidades europeias e norte-americanas estão cheias de livros que antecipam um mundo maravilhoso para o dia em que finalmente as “mulheres governem”, para depois se “entenderem entre elas”. Por mim, espero ansioso.

Chegamos, por fim, a todas as raças não-brancas, outras vítimas históricas do “homem branco ocidental”. Neste caso, a história também não engana. Num primeiro período, que durou séculos, desde o dia que Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral decidiram partir, os “brancos” expandiram-se e dominaram. Num segundo período, que se iniciou com a mudança dos “ventos da história”, deu-se a libertação de todos contra os brancos. Como muito bem sabemos, o resultado dessa “libertação” foi a liberdade e o bem-estar de todos os antigos colonizados.

O que está em cima é, obviamente, uma caricatura. Não ouso duvidar de muitas injustiças cometidas contra minorias sexuais, contra as mulheres e contra as raças não-brancas. Tal como muitos homens brancos heterossexuais forma vítimas de injustiças. Mas esta caricatura revela uma doença muito séria nas sociedades ocidentais: o ódio a nós próprios e a culpa pela nossa história. Quando se ataca, “politicamente”, o “homem branco”, normalmente está-se a atacar o “ocidente”. Não vou ao ponto de apelar: “homens brancos heterossexuais” uni-vos. Mas está na altura de dizer claramente que em nenhum lado do mundo as “minorias” vivem tão bem como nos países ocidentais. Mais: os progressos da história moderna devem-se sobretudo ao ocidente. De uma coisa estou certo: quando deixamos de ter orgulho na nossa história, somos incapazes de liderar e de reformar. O novo “fardo do homem branco” é defender a história do ocidente, para que possamos ter orgulho no nosso passado e nas sociedades onde vivemos.