João Marques de Almeida

Gordon Brown
Diário Económico, 2|Julho|2007

Blair e Brown cresceram juntos e nunca se afastaram. Só tinham um problema: queriam ser ambos primeiro-ministro.

Mesmo tendo consciência da contingência da actividade política, vale a pena correr o risco e dizer o que poderemos esperar de Gordon Brown como primeiro-ministro britânico. A minha tese é muito simples: a continuidade em relação a Tony Blair será maior do que muitos julgam.

No plano interno, o liberalismo social do ‘new labour’ irá manter-se, praticamente, inalterado. Desde que iniciou a sua carreira pública na Escócia, Brown passou quase tanto tempo a combater a ala esquerda dos trabalhistas, como aquele que passou a lutar contra os conservadores. A sua visão do “social” é herdeira do liberalismo ético do século XIX, e não das correntes socialistas do século XX. É um fiel seguidor do liberalismo reformista que visa uma sociedade mais igualitária (em relação às oportunidades), mais justa e humanista. Sempre se opôs às ideias revolucionárias de uma sociedade sem classes ou da colectivização dos meios de produção, com que sonhavam muitos dos seus colegas de partido, principalmente aqueles vindos dos meios sindicais.

Nos planos ideológico e doutrinal, Blair e Brown cresceram juntos, estiveram sempre próximos e nunca se afastaram. Só tinham um problema: queriam ser ambos primeiro-ministro, e os dois achavam que mereciam o lugar. Aliás, o facto de terem estado juntos dez anos no governo, apesar da rivalidade pessoal, demonstra precisamente a solidez da convergência doutrinal. Não consta, de resto, que tenha havido divergências substanciais entre os dois.

As discussões sobre a continuidade e a ruptura concentram-se, sobretudo, no plano externo, nomeadamente nos casos da relação com os EUA e da política europeia. Julgo que mais uma vez, no essencial, a continuidade irá triunfar sobre a ruptura. O Reino Unido e os EUA estiveram sempre juntos em todos os grandes conflitos do século XX: nas Guerras de 1914-18 e 1939-45 e durante a Guerra Fria. A ameaça terrorista do início do século XXI renovou a aliança bilateral. Ao contrário do que se diz, o Reino Unido não tem estado ao lado dos Estados Unidos apenas por causa da história ou porque Blair era o primeiro-ministro. É mais forte do que isso. A violência terrorista ameaça os dois países da mesma maneira e olham de um modo idêntico para a natureza e as causas do terrorismo. Quanto maior for a ameaça terrorista, e Brown enfrentou tentativas de atentados logo nos segundo e terceiro dia da sua estadia no Nº 10, mais próxima será a aliança com os Estados Unidos e mais tempo as tropas britânicas ficarão no Iraque.

No caso da Europa, a estratégia de aumentar a influência britânica, seguida com sucesso por Blair, será mantida. A ausência de Roma, em 1957, os vetos do General De Gaulle e o fosso económico entre os países fundadores da Comunidade Europeia e Londres, durante as décadas de 1960 e de 1970, foram suficientes para os britânicos aprenderam uma lição: não podem estar fora da “Europa”. Nos últimos dez anos, os dirigentes do “new labour” aprenderam outra lição: a prosperidade britânica está profundamente ligada ao Mercado Único. Sem ele, seria o triunfo do proteccionismo, fatal para uma economia como a britânica.

Desde os governos de Margaret Thatcher, Londres procurou sempre aumentar a sua influência e transformar, gradualmente, a “Europa”, de acordo com a sua visão. Enfrentou sempre dois obstáculos complicados. Por um lado, o cepticismo interno, fruto da excepcionalidade britânica. Por outro lado, a aliança franco-alemã que, na Europa, tem seguido uma lógica de exclusão. Se o primeiro obstáculo levanta, por vezes, problemas complicados, também permite que os britânicos o usem para ir influenciando o curso da integração europeia. E fazem-no com uma mestria sem par. O sucesso económico das duas últimas décadas, que se acentuou nos últimos dez anos, o relativo declínio económico dos três maiores países, principalmente a França e a Itália, e o grande alargamento da União, de 15 para 27 Estados, beneficiaram fortemente a estratégia de Londres.

A aproximação entre o Reino Unido e a França e a Alemanha será inevitável, e a Guerra do Iraque apenas a atrasou. O eixo franco-alemão será, progressivamente, substituído por um “triangulo estratégico”. Depois da década de Blair, pode dizer-se que nunca a “Europa foi tão britânica” e nunca o “Reino Unido foi tão europeu”. Por vezes, a racionalidade não prevalece na política. Mas só um excesso de irracionalidade é que poderia levar Brown a afastar Londres de Bruxelas.