João Marques de Almeida

Merkel e Sarkozy
Diário Económico, 14|Maio|2007

Primeiro aviso aos mais optimistas: ninguém julgue que se vai reeditar, com Angela Merkel e Nicholas Sarkozy, uma segunda versão da “dupla Kohl-Mitterrand”. Muita coisa é diferente: as experiências pessoais, a cultura política e, acima de tudo, as actuais circunstâncias políticas. Merkel e Sarkozy governam dois países “diferentes” daqueles que existiam no início dos anos de 1990. Devido a uma rara convergência de interesses, após a queda do Muro de Berlim, Paris e Bona não só concordaram em acelerar a integração europeia, com a União Monetária e a União Política, como receberam o acordo dos outros Estados Membros para o fazer. Ainda bem que assim foi. O problema foi a interpretação que muitos fizeram daquela convergência excepcional. Julgaram que passaria a ser a regra da política europeia, e não se aperceberam da raridade do momento. As coisas voltaram, entretanto, a uma certa “normalidade”, onde as convergências são mais difíceis de alcançar. Aqueles que usam a palavra “crise” para descrever os tempos normais revelam a sua vulnerabilidade às ilusões da década de 1990.

Segundo aviso a outros optimistas: a relação transatlântica não voltará atrás. Também aqui as circunstâncias políticas têm mais peso do que as preferências e os desejos pessoais. A Guerra Fria criou uma ordem de segurança excepcional na Europa, quer para o bem como para o mal. Neste domínio, está a regressar-se igualmente a tempos mais normais. Estes avisos são importantes para não oscilarmos entre o optimismo irrealista, “vamos regressar a um tempo de harmonia”, e o pessimismo resignado, “tudo o que se construiu desde 1945 está mais ou menos condenado a acabar”.

Apesar das circunstâncias políticas e das divergências de interesses entre a Alemanha e a França, que se irão notar rapidamente, Merkel e Sarkozy têm uma qualidade que será fundamental para o futuro da Europa: acreditam nos valores centrais do Ocidente. Há três pontos que devem ser destacados.

Em primeiro lugar, conhecem o valor da liberdade. Em Merkel é mais evidente porque cresceu e viveu durante mais de trinta anos num país onde não se podia ser livre, sem pertencer às elites do regime. Em política, as convicções fortes nascem deste tipo de experiências pessoais, onde se mistura o sofrimento e a frustração. Esta experiência é, além disso, a melhor protecção para o cinismo que aparece cada vez mais frequentemente em muitos sectores políticos europeus. Embora tenha nascido em França, Sarkozy pertence a uma família de refugiados. O pai fugiu ao regime comunista da Hungria e a família da mãe ao anti-semitismo da Europa balcânica. Sabe muito bem que grande parte da sua vida, se em primeiro lugar tivesse chegado a adulto, teria sido vivida sem liberdade. Além disso, em França (um país fortemente elitista) nada lhe foi dado; foi tudo conquistado até chegar ao Eliseu. Quando Sarkozy defende até à exaustão a palavra “oportunidade” está a elogiar a liberdade. Só os livres é que têm oportunidades.

Em segundo lugar, ambos valorizam o capitalismo e o mercado. Num caso, Merkel, há o reconhecimento próprio de quem foi, durante muito tempo, condenada ao miserabilismo de um sistema comunista. No caso de Sarkozy, mais uma vez a palavra “oportunidade”, e o elogio ao trabalho, vêm de alguém que acredita na liberdade de iniciativa. Ambos defendem a justiça social e o novo Presidente francês será mesmo vulnerável a tentações proteccionistas. De qualquer modo, ao contrário do que acontece entre muitos alemães e franceses, para os dois, o capitalismo é parte da solução e não do problema.

Por fim, a sua atitude em relação aos Estados Unidos é substancialmente diferente da dos seus antecessores. Sabem que a aliança transatlântica é crucial para a Europa, e para os Estados Unidos. Por vezes, irão divergir de Washington, outras vezes irão mesmo criticar o Presidente Bush, mas com eles não haverá uma estratégia europeia anti-americana. Não lhes passará pela cabeça construir uma Europa política contra os Estados Unidos. Por uma razão muito simples: associam a “América” à liberdade política e às oportunidades económicas. Merkel e Sarkozy são muito mais filhos de Weber e de Tocqueville do que de Bismarck e de Richelieu. A convergência será menor do que entre os seus antecessores, e haverá conflito de interesses, mas o reconhecimento de certos valores e a recusa de uma ‘realpolitik’ cínica serão muito mais benéficos para a Europa.