João Marques de Almeida

É fácil entender
Diário Económico, 30|Abril|2007

A década de 1990, de Ieltsin, foi a década do recuo russo, quando “o ocidente mandava na Rússia”.

A morte de Boris Ieltsin e o duro discurso à nação de Vladimir Putin, na semana passada, permitem entender as mudanças que se verificaram na Rússia, desde 1992. Ieltsin foi o primeiro Presidente democrático da Rússia pós-soviética. Foi, simultaneamente, o símbolo da resistência ao golpe militar dos comunistas mais ortodoxos, em 1991, e da transição democrática após as hesitações de Gorbachev. Putin está a tornar-se na figura da transição pós-democrática para o autoritarismo. Olhando para a década de 1990, podemos agora perguntar o que significou exactamente a “transição democrática” na Rússia? Em primeiro lugar, é óbvio que houve, durante as Presidências de Ieltsin, abertura política e liberalização da economia. Institucionalizou-se, mesmo, o pluralismo político, com a criação de partidos e a realização de eleições multipartidárias. Reconheceu-se, igualmente, a importância da iniciativa privada para o desenvolvimento económico. Mas, na Rússia, nunca houve uma democracia pluralista e uma economia de mercado. As antigas elites soviéticas nunca perderam o poder político e económico. A transição política foi, em grande medida, uma mudança de gerações, em que a nova geração do poder veio, maioritariamente, das velhas estruturas soviéticas. Conhecendo demasiado bem a realidade da antiga experiência comunista, deixaram de acreditar no modelo soviético. Mas nunca deixaram de acreditar em três coisas: demasiado pluralismo e demasiada democracia levaria à anarquia, para o evitar teriam que ser eles a manter o poder, e seria fundamental restaurar a grandeza externa da Rússia. O nacionalismo substituiu o comunismo, mas a democracia e o mercado não poderiam substituir um poder central autoritário.

Em segundo lugar, a década de 1990 foi o tempo das ilusões ocidentais. A democratização russa foi um dos casos onde mais se notou a substituição do rigor analítico pelos desejos. Todos desejaram uma Rússia democrática, e essa vontade transformou-se nos óculos com que se olhou para o gigante de leste. Mas a realidade foi sempre diferente dos desejos. Além do desejo, outras boas razões impediram que se visse a realidade. Antes de mais, depois da União Soviética, qualquer abertura seria vista como uma reforma democrática. Depois, para a cultura política ocidental é quase impossível imaginar que as maiorias não queiram viver em democracia. Na verdade, o desejo pela democracia foi sempre muito mais atribuído do que desejado pela maioria dos russos. Ao contrário do que aconteceu em muitas das outras antigas repúblicas soviéticas, na Rússia, nunca se assistiu a grandes manifestações populares pela democracia ou contra o poder. O regime soviético caiu de podre, não foi vítima de revoluções democráticas. A verdade é que a maioria dos russos, depois de terem sido, durante séculos, servos e súbditos do Czar e, durante décadas, camaradas soviéticos, agora querem ser nacionalistas russos e não cidadãos democráticos. Daí, a legitimidade do autoritarismo nacionalista de Putin.

Por fim, os desejos ocidentais foram sobrevivendo, apesar da realidade, por causa da fraqueza externa da Rússia. O que muitos, em Washington, em Bruxelas, em Londres, em Paris e em Bona/Berlim, viam como aliança, parceria ou interesses comuns com um “regime em democratização”, não era mais do que fraqueza russa. Moscovo nunca concordou com os alargamentos da Aliança Atlântica nem da União Europeia, foi obrigado a aceitar. Moscovo nunca viu os conflitos dos Balcãs do mesmo modo que os aliados ocidentais, mas estava fraco para impor a sua visão. O que mudou verdadeiramente entre o período em que Ieltsin visitava as capitais ocidentais e os actuais discursos duros de Putin não foi o autoritarismo interno, mas sim o equilíbrio de poder externo. A Rússia está mais forte e os países ocidentais mais fracos. Putin olha para o mundo e a Europa com a simplicidade dos mestres da “realpolitk”. A década de 1990, de Ieltsin, foi a década do recuo russo, quando “o ocidente mandava na Rússia”. A primeira década do século XXI, de Putin, será a década da expansão russa, quando a Rússia começa a impor a sua vontade aos ocidentais. É muito fácil perceber a Rússia de Putin: é uma potência revisionista que quer inverter a história recente, expandir-se e mandar na Europa.