João Marques de Almeida

O novo "modelo escandinavo"
Diário Económico, 23|Abril|2007

Pela primeira vez, desde 1945, os sociais-democratas estão na oposição, ao mesmo tempo, na Dinamarca, na Finlândia e na Suécia

O “modelo escandinavo” transformou-se numa espécie de terra prometida da política europeia. Na imaginação de muitos europeus, é um paraíso social no mundo violento e egoísta da globalização capitalista, mas onde há riqueza e não pobreza.

Fica sempre bem na lista de promessas das campanhas eleitorais. Por exemplo em França, dois dos principais candidatos, a socialista Ségolene Royal e o centrista François Bayrou, disseram que, se forem eleitos, vão “escandinavizar” a França. Também em Itália, o recém-formado Partido Democrata se inspira no modelo nórdico para salvar a economia social de mercado italiana. É curioso que as esquerdas do sul da Europa olham para o norte como um exemplo, no preciso momento em que as suas populações colocaram os partidos do centro-esquerda fora do governo. Pela primeira vez, desde 1945, os sociais-democratas estão na oposição, ao mesmo tempo, na Dinamarca, na Finlândia e na Suécia.

A Dinamarca foi o país pioneiro. A coligação entre liberais e conservadores está no poder desde as eleições de 2001, a primeira vez, desde a década de 1940, em que os sociais-democratas não foram os mais votados. Em Fevereiro de 2005, a coligação de centro-direita renovou a sua maioria, e o Partido Social-Democrata voltou a baixar a votação. O maior partido da coligação, o Partido Liberal, chegou ao poder com um mandato para reformar o Estado social dinamarquês. De resto, o seu líder, e actual Primeiro-Ministro, Anders Rasmussen, fez campanha apoiado nos argumentos do seu livro, “Do Estado Social ao Estado Mínimo. Quatro anos depois, o eleitorado dinamarquês renovou o mandato liberal. Em Setembro do ano passado, a Suécia seguiu o seu vizinho mais a sul. Uma coligação de centro-direita, a Aliança para a Suécia, afastou os sociais-democratas do poder. Desde 1936, o Partido Social-Democrata só esteve fora do governo durante nove anos, entre 1976 e 1982, e entre 1991 e 1994. Percebe-se, assim, o significado da mudança. A coligação de direita é composta por partidos conservadores, liberais e democratas cristãos, sendo este o mais pequeno, e liderada pelo Primeiro-Ministro mais novo da história da Suécia, Fredrik Reinfeldt. Tal como no caso da Dinamarca, o mandato do novo governo visa a reforma e a liberalização do sistema social-democrata sueco. A Finlândia foi a última peça do dominó escandinavo. Nas eleições de 18 de Março deste ano, os sociais-democratas foram a terceira força política, pela primeira vez desde 1962, e abandonaram a coligação com os liberais, passando para a oposição. O Partido do Centro (liberal), do Primeiro-Ministro, Matti Vanhanen, continua a ser o mais votado, mas governa agora em coligação comos conservadores, o segundo partido mais votado (apenas com menos um deputado do que os liberais). À semelhança dos vizinhos escandinavos, a coligação liberal-conservadora recebeu um mandato para liberalizar e privatizar a economia finlandesa. Há algumas conclusões importantes a retirar da viragem escandinava. A lição mais imediata de todas é verificar que os cidadãos dos países europeus onde a experiência social-democrata foi mais longe escolheram reformar significativamente o seu modelo. Em segundo lugar, deve-se sublinhar que as coligações de direita não questionam a justiça social; pelo contrário, pretendem melhorar o sistema social. Acreditam, no entanto, que a via liberal é a mais correcta para o fazer. Como afirmou um responsável do governo sueco, queremos responsabilidade social sem socialismo. Em terceiro lugar, nota-se uma transformação significativa na natureza ideológica da direita. Economicamente, é bastante liberal, e abandonou o proteccionismo nacionalista. Embora seja conservadora no respeito pelas tradições e pela identidade dos seus países, é socialmente mais tolerante e progressista, principalmente nas questões ambientais e dos direitos das mulheres.

Por exemplo, o governo finlandês é o primeiro na história da Europa onde há mais mulheres do que homens. Não pretendo sugerir que o exemplo escandinavo deva ser seguido por outros países com tradições e costumes diferentes. Mas há alguns pontos essenciais partilhados por todos os países europeus. São democracias parlamentares, com economias de mercado e sociedades pluralistas. O que os cidadãos dos países escandinavos estão a dizer é que o poder do Estado e as políticas sociais devem ser instrumentos ao serviço da liberdade e do bem-estar individual e não fins em si mesmo. É esta simples mas profunda lição que todos os dirigentes dos países do sul, que olham para a Escandinávia à procura de inspiração, devem aprender. O novo ministro das finanças da Suécia estabeleceu a regra número um: por vezes, a melhor actuação dos governos é quando não fazem nada e se limitam a garantir que os cidadãos podem fazer o que querem e o que devem”.