João Marques de Almeida

«Bushmarck»
Diário Económico, 10|Abril|2007

Depois de oito anos de diplomacia revolucionária, a qual incluiu três guerras, Bismarck mudou radicalmente. Em 1862, chegou a primeiro-ministro da Prússia, e nos oito anos seguintes combateu, sucessivamente, a Áustria, a Dinamarca e a França até alcançar a reunificação da Alemanha, em 1870. Depois, como Chanceler alemão, a sua prioridade passou a ser manter a paz com as outras potências europeias, quer na Europa como nas colónias. Como potência central, a Alemanha deveria estabelecer parcerias e alianças com os grandes europeus para evitar o cerco estratégico. Seria assim o centro do concerto diplomático europeu. Por outro lado, aceitava limites à sua expansão estratégica. As duas décadas, entre 1870 e 1890, são ainda hoje vistas como um exemplo de sucesso diplomático num sistema multipolar, de várias grandes potências.

Não quero sugerir, com o título do artigo, que o Presidente Bush olha para a diplomacia de Bismarck como um modelo para os Estados Unidos. No entanto, prestando atenção à viragem diplomática de Washington nos últimos anos, lembrei-me do primeiro Chanceler alemão. A maioria dos analistas europeus tem dificuldade em perceber a mudança norte-americana por duas razões. Por um lado, para muitos deles, a política externa de Bush significa unicamente guerra do Iraque. Há, contudo, diplomacia, e muita, para além do Iraque. Por outro lado, quase toda a gente presume que a transição para um sistema multipolar penaliza, acima de tudo, os Estados Unidos. O raciocínio é simples: se os Estados Unidos eram a potência hegemónica do sistema unipolar, a multipolaridade, acabando com a hegemonia americana, retira poder a Washington. A realidade é, todavia, mais complicada.

Numa distribuição de poder multipolar, os Estados Unidos têm três vantagens. Em primeiro lugar, continuam a ter mais poder em todas as áreas fundamentais, desde o plano militar até ao económico passando pelo cultural e pelo científico, do que todas as outras grandes potências. O sistema poderá ser multipolar, mas o poder continua a ser decisivo; e os Estados Unidos têm poder a sério. Em segundo lugar, goza dos privilégios que resultam da sua situação territorial excepcional. São a única grande potência que não têm como vizinho uma outra grande potência. Nenhuma das outras, as europeias, a Rússia, a China, a Índia e o Japão, beneficia desta vantagem. Por fim, como resultado da geografia, todas as grandes potências sentem a sua segurança territorial mais ameaçada pelos seus vizinhos do que pelos Estados Unidos; e por isso, muitas delas procuram estabelecer alianças com Washington.

É aqui que se percebe que há diplomacia norte-americana para além do Iraque. Desde o início do segundo mandato do Presidente Bush, os Estados Unidos estão a desenvolver um conjunto de parcerias estratégicas com outras grandes potências e ou com potências regionais. Aprofundaram a aliança com o Japão e construíram parcerias estratégicas com a Índia, a Indonésia e o Brasil. Mais importante, do ponto de vista europeu, as relações entre os Estados Unidos e a Alemanha conhecem uma fase bastante positiva e a relação bilateral com a União Europeia está a ser reforçada.

É óbvio que a estratégia de alianças de Washington não é inocente. Procura limitar a expansão de poder dos seus maiores rivais, nomeadamente a China e a Rússia e conter ameaças à sua segurança como o terrorismo radical e totalitário. Notam-se, porém, dois pontos meritórios. Antes de mais, a diplomacia americana desafia não só a divisão entre a direita e a esquerda, como demonstra a relação com o Brasil de Lula, como os supostos “choques civilizacionais”, como mostram as alianças com a Índia e, principalmente, com a Indonésia. O segundo mérito está relacionado com a natureza política destes países. A Índia, o Brasil, a Indonésia não são apenas potências emergentes; são igualmente novas democracias pluralistas e constitucionais. Neste aspecto, os Estados Unidos estão a conciliar, de um modo exemplar, uma estratégia de poder com uma diplomacia de alianças com as democracias. Estão, assim, a ajudar a redefinir o conceito de “Ocidente”: será cada vez menos cultural e cada vez mais político.