João Marques de Almeida

Bush e Lula
Diário Económico, 12|Março|2007

Até 1945, o mundo era multipolar. Foi contra este mundo, e não apenas contra a URSS, que se fez o ”Ocidente” e a ”Europa”.

Aparentemente, Lula e Bush têm um bom relacionamento, simpatizam mesmo um com o outro, apesar de muita coisa os distinguir. Lula tem um passado humilde, fez grande parte da sua carreira política nos sindicatos e é de esquerda. Pelo contrário, Bush vem de um família privilegiada, é do Partido Republicano e é conservador. Além disso, um é Presidente brasileiro e o outro é Presidente norte-americano, olhando para o mundo de um modo diferente. Possivelmente, se não tivesse chegado a Presidente, Lula teria estado à frente dos manifestantes brasileiros que protestaram contra a visita de Bush. No entanto, dão-se bem. Nota-se que têm mesmo algumas coisas em comum. Acima de tudo, são dois homens simples e pragmáticos. Numa relação entre dois estadistas, há por vezes uma certa ”química” que ultrapassa as divergências ideológicas, como parece ser o caso. Tudo isto foi evidente na visita que Bush vez ao Brasil. Há, todavia, dois pontos, de natureza política, que devem ser discutidos e ambos têm a ver com Lula e com o Brasil.

O primeiro mostra as diferenças no interior da esquerda latino-americana. Lula faz parte da esquerda democrática. Convive bem com o pluralismo político, defende as instituições políticas do seu país, e respeita direitos humanos e liberdades fundamentais. Em suma, aceita que existem uma série de limites ao seu poder, e a condição de Presidente não lhe permite fazer o que quer. Chávez é o oposto. Não aceita o pluralismo político, adapta as instituições aos seus interesses e objectivos e não para de acumular poder. Como qualquer revolucionário, aspira ao poder ilimitado. Sabemos bem como é que a história vai acabar. Primeiro, concentra poder, depois haverá cada vez mais pessoas a resistir e, por fim, terá que preservar o poder pela força. A prazo, a Venezuela será uma segunda Cuba. Em termos curtos, enquanto Lula é um democrático, Chávez é um ditador que despreza a democracia.

A atitude em relação à democracia está ligada à posição em relação aos Estados Unidos. Lula tem discordado muitas vezes da política externa norte-americana, criticou por exemplo a guerra do Iraque, mas não lhe passaria pela cabeça prosseguir uma estratégia diplomática anti-americana. Chávez não faz outra coisa se não atacar os Estados Unidos. Todas as semanas, faz um discurso contra o Presidente americano. O último foi em Buenos Aires durante a visita de Bush ao Brasil. A política externa da Venezuela hoje é atacar os Estados Unidos, promover a sua agenda populista, anti-americana e revolucionária na América Latina e aliar-se aos inimigos dos Estados Unidos, desde o Irão à Coreia do Norte. Lula não só se desmarcou da agenda de Chávez, como estabeleceu uma aliança estratégica com Washington. O que alguns analistas chamam a “diplomacia do etanol” pode ter um profundo impacto nas políticas energéticas dos dois países (e mesmo do Ocidente em geral) daqui a alguns anos.

A aliança entre Washington e Brasília permite ainda algumas observações sobre a ideia de “mundo multipolar”, a nova crença a que muitos aderiram. O modo primário como muitos lidam com a ideia é das coisas que me deixa mais espantado (e os últimos anos não param de me provocar espantos). Basicamente, “mundo multipolar” significa oposição aos Estados Unidos, daí a excitação provocada pelo termo. A associação leva, contudo, a um duplo equívoco. Em primeiro lugar, é um erro considerar que todas as novas potências mundiais seguirão, no essencial, uma diplomacia contra os Estados Unidos. É este erro que leva muitos a olhar para os “BRIC” (Brasil, Rússia, Índia e China) como um bloco. Enquanto a Rússia e, de certo modo, a China consideram a hegemonia norte-americana uma ameaça, o Brasil e a Índia vêem os Estados Unidos como um parceiro estratégico. Foi isso que Lula acabou de demonstrar.

O segundo erro, e o mais perigoso de todos, é a defesa absoluta do “mundo multipolar”. A questão decisiva é o tipo de mundo multipolar que vamos ter. Em particular, se o novo mundo multipolar vai destruir ou formar-se à volta do Ocidente (mesmo que dê origem a um novo tipo de Ocidente, onde o Brasil e a Índia poderão ter um papel central). Para ajudar à reflexão, uma pequena ajuda histórica. Até 1945, o mundo era multipolar. Foi contra este mundo, e não apenas contra a União Soviética, que se fez o “Ocidente” e a “Europa”.