João Marques de Almeida

Incoerências liberais
Diário Económico, 19|Fevereiro|2007

A maioria dos europeus pode não se identificar como liberal, mas pretende mais políticas liberais.

Em Portugal, o referendo demonstrou algumas incoerências interessantes. Muitos dos que são mais liberais no plano económico, mostraram que são conservadores na esfera moral e dos comportamentos sociais, defendendo o Não. Por outro lado, muitos dos que se empenharam pela liberdade e pelos direitos das mulheres, quando a discussão passa para a economia, não se cansam de atacar o malvado ”neo-liberalismo”. Reformas económicas liberais, nem ouvi-las. Ou seja, aliam ao seu liberalismo moral e de costumes, um profundo conservadorismo económico e social. À direita, as contradições são históricas. Há uma longa tradição, na direita europeia, de coexistência entre liberalismo económico e conservadorismo social e moral. Para a esquerda, as contradições são mais preocupantes. Se o liberalismo moral não é novo, o conservadorismo económico e social é recente e causa problemas. Se olharmos para a esquerda europeia nos últimos dez anos, percebemos duas coisas. No plano doutrinal, ainda persiste, entre uma larga maioria, um discurso anti-liberal. No entanto, quando governa, é obrigada a fazer reformas que liberalizam as economias dos seus países.

A crise do crescimento económico europeu foi o contexto que obrigou as forças de esquerda a enfrentarem as suas convicções ideológicas, para poderem responder à questão central para o eleitorado: como governar para aumentar o crescimento económico. A questão central não tem a ver coma justiça social nem coma intervenção do Estado. Nenhuma força política afastará a justiça social dos seus programas, e o Estado terá sempre um papel importante. Mas a segunda metade do século XX deu nos duas evidências. Em primeiro lugar, a qualidade da justiça social depende do crescimento económico. Se é certo que as sociedades mais ricas podem não ter uma elevada justiça social, e aqui as forças sociais democratas podem fazer a diferença, é ainda mais verdade que sem riqueza não há justiça social. Em segundo lugar, se o Estado for o condutor da economia o crescimento económico será mais reduzido. Dito de outro modo, o grande motor do crescimento económico é a sociedade, os seus grupos privados e os cidadãos. Foi isto que o fracasso dos modelos socialistas soviéticos demonstrou.

As forças políticas de esquerda têm beneficiado dos receios, inteiramente legítimos, que muitos sentem em relação a reformas e à possibilidade de perderem privilégios sociais. No entanto, o objectivo de conservar pode trazer vantagens a curto prazo, mas não resolve o problema do crescimento económico a médio, longo prazo. O grande desafio continuar a ser o seguinte: como construir um programa de esquerda que ajude a tornar as sociedades europeias mais ricas? Por outras palavras, para se perceber o alcance do dilema: as sociedades europeias precisam de reformas liberais e não de reformas socialistas. Na Europa de norte, no Reino Unido e nos países escandinavos, os partidos de esquerda têm respondido com sucesso à questão. Não acontece o mesmo em França, em Itália, e o próprio SPD alemão não tem evitado profundas tensões. Um estudo recente demonstra que, além dos instintos conservadores de parte do seu eleitorado (por exemplo, função pública), uma grande dose de dogmatismo ideológico explica a dificuldade de adaptação a uma realidade que exige reformas. Outros estudos sobre o eleitorado francês mostram que a maioria dos franceses quer justiça social mas, ao mesmo, tempo rejeita mais intervenção do Estado. Há um fosso cada vez maior entre um discurso anti-liberal e as pretensões liberais de grande parte das populações europeias. As mesmas pessoas que afirmam, em termos gerais, não querer mais liberalismo, dizem depois, em relação a perguntas específicas, que querem mais liberdade económica, mais autonomia em relação ao Estado e mais iniciativa privada. Ou seja, para os políticos europeus em geral, o desafio será convencer os eleitorados de que a solidariedade social não só não é incompatível, como pode ser reforçada pelo aumento da liberdade individual. Como sugerem vários estudos de opinião, a maioria dos europeus pode não se identificar como liberal, mas pretende mais políticas liberais. O caminho para o sucesso, no futuro, passa por ser capaz de integrar esta contradição num programa político credível.