João Marques de Almeida

Os novos fundamentalismos
Diário Económico, 05|Fevereiro|2007

As novas ameaças estão a ser usadas como pretextos para legitimar as ambições dos fundamentalistas anti-liberdade e anti-mercado

Um dia, há cerca de um ano, participei numa conferência na Galiza. Fui de carro e a caminho do local do encontro, parei para beber um café. Entrei num estabelecimento de aspecto modesto e antigo, com um cartaz na porta onde estava escrito, em letras bem grandes, para se ler à distância, “aqui pode fumar-se”. Lá dentro, um grupo de pessoas, novos, velhos, homens, mulheres, ricos e pobres, partilhavam um hábito que os une: fumavam um simples cigarro. Aquele café permitia que não tivessem que o fazer à chuva e encolhidos por causa do frio, como se vê nas ruas de Londres e Bruxelas. Aquele cartaz permitia que se desenvolvesse uma solidariedade, há uns tempos impensável, entre pessoas tão diferentes. Mas é também um símbolo de resistência ao poder central. Aqui, na minha propriedade, mando eu; e não há autoridade pública que me diga o que devo ou não fazer.

Eu nem sequer fumo, mas nunca mais me esqueci daquele café e daquele cartaz. Acredito que há princípios muito mais importantes do que o possível mal que os outros fumadores me possam causar. A cruzada contra os fumadores, colocando-os quase na categoria dos novos leprosos, deixa-me incomodado. Como é óbvio, o ponto secundário é o tabaco e o fumador; a questão central é o desejo de muitos que estão no poder de controlar até ao último pormenor a vida das pessoas. Primeiro, começaram por nos dizer em que escola devemos inscrever os nossos filhos, em que hospital nos devemos tratar, e de que modo se deve poupar dinheiro para a nossa velhice. Agora, dizem-nos quais são os hábitos que nos toleram, os prazeres que podemos gozar, a comida que devemos comer, e estamos até a chegar ao ponto de nos quererem dizer os carros que podemos guiar. Não deixa de ser um sinal revelador da enorme confusão em que vivemos quando muitos defendem, simultaneamente, maior liberdade para abortar, mas menos liberdade para comer, a legalização das drogas, mas a proibição de fumar.

O aquecimento global é a causa da última vaga de fundamentalismo. Antes de mais, para não deixar dúvidas, sei que a alteração climática global é um problema muito sério e que é urgente tomar medidas para a combater. No entanto, também percebo que essa urgência cria as condições ideais para se atacar o capitalismo e muitos dos hábitos das sociedades burguesas, e para reforçar as tendências centralizadoras de muitos que ocupam o poder. Basta ler meia dúzia de jornais e ver as notícias na televisão para entendermos a narrativa que está a ser criada: há uma grave ameaça ao nosso futuro, os grandes culpados são o capitalismo e muitos dos nossos hábitos burgueses, por isso, compete a quem tem poder controlar os capitalistas e acabar com muitos daqueles hábitos. Há pouco, li um artigo onde um dos principais dirigentes do grupo liberal do Parlamento Europeu afirmava que as companhias aéreas britânicas não deviam ter preços baixos nas viagens para o sul, a Grécia, Chipre, Croácia, Bulgária, porque isso permitia os reformados do Reino Unido comprarem casas de férias nesses países para onde viajavam frequentemente, aumentando assim os gazes que contribuem para o aquecimento global. É extraordinário: um político liberal (que em muitas outras questões tem posições sensatas e justas) a defender restrições à liberdade de viajar por causa das alterações climáticas. Mostra o histerismo e o absurdo onde estamos a chegar. Num exemplo mais radical, uma activista australiana sugeriu que o direito penal deveria punir quem rejeitasse a visão ortodoxa das causas do aquecimento global, usando como termo de comparação a negação do Holocausto.

De tudo isto, há uma conclusão a tirar. A defesa do equilíbrio global do clima e da saúde pública tem que ser compatível com o funcionamento do capitalismo, a grande fonte de riqueza e de prosperidade, e com as liberdades individuais. Ninguém tenha dúvidas: as novas ameaças estão a ser usadas como pretextos para legitimar as ambições dos fundamentalistas anti-liberdade e anti-mercado para nos controlar e nos tornar pobres.