João Marques de Almeida

O Iraque depois das eleições
Diário Económico, 13|Novembro|2006

Desde a reeleição de Bush tornou-se evidente que o futuro de Rumsfeld estava inteiramente dependente da vontade do Presidente.

A demissão de Donald Rumsfeld, afinal, estava guardada para o momento de uma derrota eleitoral. A decisão do Presidente Bush procura não só responder à insatisfação dos republicanos com os resultados eleitorais como limitar os efeitos da derrota. Além disso, tendo em conta a importância do Iraque na campanha eleitoral, é claro que a administração, em termos políticos, responsabilizou o antigo Secretário da Defesa pelas dificuldades iraquianas. É quase unânime que Rumsfeld cometeu erros graves durante a condução da guerra, começou a ser bastante contestado entre as chefias militares e raramente demonstrou prudência e contenção nos ataques e críticas que fez a militares, a aliados externos e mesmo a colegas de governo. São demasiadas frentes para um homem só, e desde a reeleição de Bush tornou-se evidente que o futuro de Rumsfeld estava inteiramente dependente da vontade do Presidente. Há, porém, um problema com tudo isto. Se Washington e as capitais dos aliados europeus se convencerem que as coisas correram mal “por causa de Rumsfeld”, estão a cometer um terrível erro de análise política. Os problemas do Iraque têm, no limite, tanto a ver com os erros do Pentágono como com as dificuldades de operações deste tipo, com os limites do poder dos Estados Unidos e com os efeitos da divisão ocidental. Estes temas, muito mais do que os erros de Rumsfeld, é que nos devem interessar para perceber o futuro da segurança internacional. No mundo pós-Iraque, a vontade de fazer intervenções militares, incluindo intervenções humanitárias, será muito menor, desde logo em Washington. Algumas das principais vítimas desta mudança de rumo serão muitas das populações de países africanos, vítimas de crimes humanitários, como já se passa actualmente no Sudão e na Somália. Neste sentido, é estranho que os sectores liberais e social-democratas europeus, que defenderam a legitimidade da intervenção humanitária durante a década de 1990, não tenham entendido devidamente o alcance do problema iraquiano. Mesmo que a guerra não tenha sido, no início, uma operação humanitária, o seu fracasso afectará o futuro das intervenções humanitárias. A nova ordem pós-intervencionista irá levantar enormes obstáculos às doutrinas de defesa europeias, claramente dirigidas para intervenções externas de natureza humanitária e de reconstrução de Estados falhados. A longo prazo, a demissão de Rumsfeld é irrelevante. A questão decisiva, para os europeus, é saber se o conceito estratégico europeu será uma das vítimas do Iraque.

É um erro esperar grandes mudanças na política norte-americana no Médio Oriente. O Partido Democrata é tão firme no apoio a Israel como os republicanos. Aliás, tradicionalmente foi sempre o partido mais próximo não só dos judeus americanos como de Israel. Do mesmo modo, a oposição à nuclearização do Irão e a firmeza perante os movimentos radicais da região será tão forte entre os democratas como entre os sectores republicanos que estão no poder em Washington. Mais, a leitura dos resultados eleitorais, que vai muito além dos resultados finais e das maiorias, acentuará aquelas tendências entre os democratas. Pelas primeiras reacções após as eleições, os democratas estão a chegar a duas conclusões. Por um lado, a população norte-americana continua a exigir que os seus líderes políticos sejam firmes perante o radicalismo islâmico e o terrorismo. Ou seja, a agenda de segurança continua a ser prioritária. Por outro lado, o Partido democrata tem a consciência que ainda precisa de ganhar credibilidade em relação à política externa e à segurança internacional. Este poderá ser o grande obstáculo para conquistar a Presidência em 2008.

Há ainda um factor adicional que importa considerar. Se as eleições foram, em larga medida, consideradas como um exame à condução da guerra pela administração republicana, então é óbvio que a vitória eleitoral aumenta as responsabilidades dos democratas em relação ao Iraque. Estão, agora, reunidas as condições para a guerra iraquiana se tornar um problema americano e não apenas um erro republicano. A partir de agora, qualquer decisão em relação ao Iraque terá que ter a participação das maiorias democratas, principalmente no Senado. Também não se espere demasiado do famoso relatório Baker; ainda nunca se viu uma guerra ser resolvida por relatórios. Há, contudo, dois pontos finais interessantes. Os grandes opositores à política da administração de Bush no Médio Oriente são os chamados “republicanos realistas” e não os “democratas internacionalistas”, o grupo que define a política externa no Partido Democrata, e muito mais próximos dos neo-conservadores do que se julga na Europa. Neste sentido, a vitória de um republicano como John MacCain, em 2008, seria o melhor resultado possível para a agenda europeia: negociações directas com o Irão e com a Síria e maior empenho na questão palestiniana. Por fim, convinha por uma vez que em Washington se levasse a sério um conselho de um famoso francês, Napoleão: “nas guerras, primeiro ganha-se, depois discute-se”. Ou me engano muito, ou será um dirigente democrata a relembrar isto num futuro próximo.