João Marques de Almeida

O mundo depois do Iraque
Diário Económico, 30|Outubro|2006

O prolongamento da guerra civil no Iraque e as dificuldades dos Estados Unidos tiveram consequências dramáticas para o Ocidente e para a Europa.

Defendi a guerra do Iraque por duas razões. Em primeiro lugar, porque me pareceu uma boa ideia derrubar o regime de Saddam Hussein. Internamente, seria o fim de um dos regimes mais violentos e totalitários que tinham sobrevivido ao fim da Guerra Fria.

No plano externo, seria o desaparecimento de um regime expansionista, que não hesitava em recorrer à força militar para conquistar territórios vizinhos, e apoiante do terrorismo internacional. Em segundo lugar, porque a partir destas razões válidas e da necessidade de reforçar a relação transatlântica, pareceu-me fundamental que os europeus estivessem ao lado dos Estados Unidos na ressaca do 11 de Setembro. Na altura, escrevi que a guerra seria muito complicada e que esperava que Washington se tivesse preparado para as dificuldades. Citei mesmo Talleyrand, dizendo que se não o fizeram ”pior do que uma tragédia, cometem um erro político”. Hoje, ainda julgo que as duas razões citadas são inteiramente válidas. Também acho que grande parte da oposição que surgiu na Europa tinha pouco a ver com a justiça da guerra ou o Iraque, estando antes associada a objectivos políticos que me parecem negativos e que devem ser combatidos. Mas a verdade é que temos que reconhecer que as coisas correram mal e que estamos e vamos pagar um preço elevado pelos erros cometidos.

Até pode acontecer que a situação no Iraque acabe por melhorar (aliás, só pode mesmo melhorar), mas já há consequências negativas que obrigam os que apoiaram a administração americana a tirar conclusões. A primeira conclusão óbvia refere-se aos custos políticos na Europa. Os que pagam o preço mais alto pelos erros dos governos norte-americanos são os que defendem uma visão atlanticista para a segurança europeia. Pelo contrário, os adversários dos Estados Unidos são os que mais beneficiam dos erros cometidos no outro lado do Atlântico. E cometeram-se muitos erros que não se podem repetir. Os primeiros a perceber são os eleitores norte americanos que vão punir, e bem, nas eleições para o Congresso os republicanos. Depois, e este ponto é crucial, espera-se que o próximo Presidente norte-americano não repita os mesmos erros. O primeiro grande erro foi a desvalorização da importância dos aliados europeus e a sobrevalorização das capacidades americanas. Reconheceu-se que nem todos na Administração Bush erraram, e que a radicalização que ocorreu na Europa reforçou o poder dos que cometeram aqueles erros de avaliação. Em grande medida, o partido unilateralista norte-americano foi ajudado pelos europeus anti-americanos. Mas é em situações desta natureza que um Presidente com sensibilidade para a política mundial e para a diplomacia pode fazer a diferença. Bush, infelizmente, não tem essas qualidades. O segundo grande erro foi o facilitismo com que se abordou a questão da reconstrução do Iraque. Não só as percepções sobre as reacções dos iraquianos ao derrube do regime de Saddam estavam completamente erradas (o que diz muito sobre a situação do sistema de informações de Washington), como a preparação das forças e do pessoal americano para estabilizar politicamente o país numa situação de vazio político foi uma desastre.

O prolongamento da guerra civil no Iraque e as dificuldades dos Estados Unidos tiveram consequências dramáticas para o Ocidente e para a Europa. Decorridos três anos e meio do início da guerra do Iraque, que mundo temos hoje? O poder relativo dos Estados Unidos, e dos seus aliados europeus, declinou em relação a grandes potências como a China, a Índia e a Rússia. Por exemplo, Moscovo voltou a ter uma política expansionista e aposta, de novo, na divisão do Ocidente e da Europa. De igual modo, o poder de Pequim estende-se para África e para a América Latina, tradicionalmente regiões de influência ocidental. As consequências das divisões entre os aliados ocidentais e entre os parceiros europeus ainda se fazem sentir, nomeadamente nas dificuldades que as instituições europeias e euro-atlânticas encontram para impor a sua agenda. Além disso, a segurança de Israel nunca esteve tão ameaçada nos últimos vinte anos como está agora. O radicalismo islâmico aumentou, principalmente na Europa.

Os problemas dos Estados falhados não param de se agravar. E a fraqueza ocidental impede que se trave a proliferação nuclear. Dito de outro modo, três anos depois, temos a China e a Rússia mais fortes, um Irão a caminho do poder nuclear, Israel ameaçado por todos os lados, e as comunidades muçulmanas na Europa cada vez mais radicalizadas. Não chega tomar as decisões certas, como fez Bush após o 11 de Setembro; depois é essencial não cometer erros básicos, como aconteceu com a administração norte-americana. Para os que não conseguem disfarçar a sua alegria com o desastre do Iraque, um aviso: o mundo pós-Ocidental será muito pior.