João Marques de Almeida

O síndroma de Versailles
In Diário Económico, 25|Setembro|2006

A verdade é que aos líderes políticos não-ocidentais perdoa-se muita coisa que seria impensável desculpar a um dirigente ocidental. Por que será?

Um dos maiores professores de política que o mundo ocidental teve até hoje, Maquiavel, escreveu um dia o seguinte: há doenças de cura fácil, mas de diagnóstico difícil; o perigo é de quando se descobrir o diagnóstico já não ser possível a cura. A citação do grande autor de Florença ocorreu-me ao observar o que se passou na semana passada em Nova Iorque, na Cimeira anual das Nações Unidas. Há dois sintomas que continuam a ser muito fortes no modo ocidental de olhar para a política mundial. O primeiro é o modo sobranceiro, quase arrogante, como se olha para o resto do mundo. A arrogância não é imediatamente visível, e passa mesmo despercebida aos olhos de muitos, porque surge sob a forma de compreensão, tolerância e boa vontade. Veja-se o caso da visita do Presidente iraniano a Nova Iorque, onde falou num conhecido instituto norte-americano, o ‘Council on Foreign Relations’. Numa sala onde costumam intervir diplomatas prudentes, Ahmadinejad voltou a questionar a veracidade do Holocausto, afirmando que é necessário fazer mais investigação sobre o que verdadeiramente se passou. Um senhor de idade, 81 anos, sobrevivente do campo de concentração de Dachau, respondeu-lhe que não era precisa fazer nenhuma investigação porque ele tinha lá estado (no fim da sessão, respondendo a quem lhe perguntou como tinha aguentado as provocações sem se exaltar, disse, simplesmente, “já vi pior”). Além disso, como também já é habitual, o Presidente iraniano questionou a legitimidade da criação do Estado de Israel. E, desta vez, de um modo brutal: “se a Segunda Guerra Mundial causou a morte a cerca de sessenta milhões de pessoas, porque razão houve tanto incómodo com a morte de uma pequena minoria?” Alguém viu indignação entre aqueles que tão facilmente se indignam com coisas menos importantes e menos graves? Imaginem as reacções se fosse um responsável político europeu ou norte-americano a fazer estas declarações. E se o Presidente israelita dissesse que um dos países vizinhos, que foi criado na mesma altura que Israel, não tivesse o direito de existir e que deveria ser, para usar a expressão preferida de Teerão, “riscado do mapa”? Quantas manifestações não aconteceriam no mundo ocidental? A verdade é que aos líderes políticos não-ocidentais perdoa-se muita coisa que seria impensável desculpar a um dirigente ocidental. Por que será? A verdade é que são poucos no mundo ocidental que levam o Irão a sério, tal como não levaram, e ainda não levam verdadeiramente, as ameaças de líderes radicais islâmicos a sério. Outro exemplo. No caso do poder económico, na Europa, muitos preocupam-se com o poder dos Estados Unidos, daí o ataque permanente à “natureza selvagem e injusta” do “capitalismo norte-americano”. No caso da China, são menos os que se preocupam com as injustiças e as desigualdades do seu sistema económico. De novo, por que será? Porque os Estados Unidos são vistos como os grandes rivais e a China apenas como aspirante a um estatuto de que os europeus gozam há séculos?

Chegamos assim ao segundo sintoma, o síndroma de Versailles. Os cálculos de poder nas capitais ocidentais incluem, em primeiro lugar, e antes de mais alguma coisa, os seus vizinhos e aliados. Ocorre algum acontecimento importante na política europeia, em Paris pensa-se imediatamente nas implicações que isso terá para o poder de Londres e de Berlim, e nas capitais britânica e alemã pensa-se da mesma maneira. Se for no plano mundial, na Europa olha-se logo para os efeitos em termos de poder nos Estados Unidos (em Washington, é diferente por cada vez mais se olha para Pequim, para Nova Deli e para Moscovo). Veja-se, por exemplo, as diferentes concepções de “mundo multipolar”. Na Europa, significa antes de mais um “bipolarismo” entre europeus e norte-americanos, com todos os outros num plano inferior. No entanto, em Pequim, em Moscovo, em Nova Deli, e até em Washington, o significado de multipolarismo é diferente; e nem sei se a Europa aparece em todas as configurações multipolares. A verdade é que a maioria dos estadistas europeus (e muitos diplomatas, jornalistas e académicos) continua a olhar para as relações de poder na política mundial como se estivéssemos no século XIX. Não conseguem acreditar que um dia o mundo possa ser dominado por potências não-europeias e não ocidentais, e continuam a acreditar que são as potências dominantes (a integração europeia e a aliança atlântica têm mantido a ilusão). A ilusão europeia tem também muito a ver com os símbolos e os rituais dos seus centros de poder. Quem passa anos e anos nos magníficos palácios e edifícios das capitais europeias (e Versailles não tem nada a ver com a França, é apenas o exemplo) acaba por acreditar que continua a estar no centro do poder mundial. Podemos chamar à doença o “isolacionsimo palacial”. Temo que quando se descobrir que o mundo mudou, já não haja cura.