João Marques de Almeida

O Irão e a Palestina
In Diário Económico, 28|Agosto|2006

No caso do Irão, será muito complicado reconhecer Israel sem que a legitimidade do regime seja gravemente afectada.

Cada vez que há uma guerra no Médio Oriente, surge a tese de que enquanto o conflito israelo-palestiniano não for resolvido não haverá estabilidade e paz na região. Muitos atribuem a Israel, considerado uma potência ocupante e expansionista, grande parte da culpa pelos sucessivos fracassos do processo de paz. Como resultado destes argumentos, houve-se frequentes apelos a um envolvimento sério das grandes potências, principalmente dos Estados Unidos, o outro grande responsável pelos fracassos diplomáticos, não só devidos aos alegados erros da sua política externa, como ao seu alinhamento com Israel. Esta visão tornou-se tão dominante que é difícil encontrar alguém que não a defenda. Ora, está na altura de ser abandonada porque não corresponde à realidade. Quando o mundo muda, convém alterar as nossas explicações.

O modelo de um tratado de paz que, simultaneamente, criasse o Estado da Palestina e garantisse a segurança de Israel, com a mediação das grandes potências ocidentais, morreu em 2000, em Camp David. Não vale a pena ter ilusões. Vale, no entanto, a pena rever um pouco a história. Após a Guerra do Golfo de 1990-91 e a dissolução da União Soviética, reuniram-se condições para se iniciar um processo de paz entre israelitas e palestinianos. A Intifada palestiniana aumentava os custos da ocupação, ajudando a sociedade israelita a aceitar acordos com os seus vizinhos. Muito fragilizado no plano internacional, Arafat aceitou negociar com os israelitas. Por fim, a administração de Bush pai, após a vitória na primeira guerra contra o Iraque, empenhou-se nas negociações. Durante a década de 1990, as duas administrações democratas, de Bill Clinton, continuaram empenhadas no processo de paz. Do lado de Israel, o executivo do Likud, de Netanyahu, foi um firme opositor, mas os dois governos trabalhistas, liderados respectivamente por Rabin e por Barak, fizeram tudo para que as negociações tivessem sucesso. Arafat foi o grande problema. Antes de mais, nunca impediu os ataques terroristas, contra a população israelita. Além disso, demonstrou sempre uma grande ambiguidade em relação ao próprio processo de paz. Usou sempre dois discursos. Para o Ocidente, apresentava-se como um dos rostos da “paz dos bravos”. Por outro lado, entre os palestinianos, e por todo o mundo árabe, continuava a ser o símbolo da luta por uma “Palestina do mar ao rio Jordão” (portanto, sem Israel). Há dezenas de discursos de Arafat a defender a “unificação total da Palestina”. Os livros escolares dos alunos palestinianos não se referem à existência do Estado de Israel. Nos seus tempos livres, vão para campos de férias onde se cultiva o ódio a Israel e se aprende as virtudes guerreiras para se alcança a “vitória final”. A estratégia revolucionária de Arafat começou a tornar-se clara em Camp David, no final de 2000. A transformação da questão dos refugiados numa condição decisiva para o tratado de paz demonstra que se pretende impedir o sucesso das negociações. A aplicação da fórmula de Arafat, o regresso de “todos os descendentes de todos os palestinianos que abandonaram a Palestina desde 1948”, seria o primeiro passo para o fim de Israel. Desde 2001, Arafat estabeleceu uma aliança de facto com o Hamas, por isso libertou muitos dos seus dirigentes, e iniciou uma segunda vaga de ataques terroristas contra Israel. Ironicamente, dado o seu discurso oficial para o Ocidente, a sua morte deixou o Hamas no poder e a OLP enfraquecida. Foi, contudo, o resultado natural da sua estratégia dos últimos anos.

No plano regional, a radicalização de Arafat e a consolidação do poder por parte do Hamas foram acompanhados pela expansão estratégica do Irão. Antes de mais, o regime iraniano beneficia do enfraquecimento das potências regionais árabes. O Egipto atravessa uma grave crise de legitimidade interna, a Arábia Saudita perdeu legitimidade na região e enfrenta uma “quase guerra civil” contra a al-Qaeda, a Síria está isolada, e subordinada a Teerão, e o Iraque, neste momento, não conta. Em segundo lugar, com paciência e de um modo inteligente, o Irão foi alargando o seu poder. Transformou-se no principal apoio externo ao Hamas, ultrapassando a Arábia Saudita, e criou uma força militar poderosa no Líbano, o Hezbollah. Por fim, uma dos traços definidores do regime revolucionário iraniano é a defesa do fim de Israel. Desde 1979, os traços mais fortes do discurso público do regime iraniano são o ódio à “América” e a “destruição da entidade sionista”. Tomando como exemplo um outro regime revolucionário, a União Soviética, a oposição à “América e ao sionismo” está para o Irão como estava a oposição ao capitalismo para os soviéticos. Como se verificou, no dia que o capitalismo triunfasse na Rússia, a União Soviética teria que desaparecer. No caso do Irão, será muito complicado reconhecer Israel sem que a legitimidade do regime seja gravemente afectada. Devido ao aumento do poder iraniano, já não é possível fazer a paz entre israelitas e palestinianos sem o acordo do Irão (tal como será muito difícil estabilizar o Líbano e o Iraque). E é aqui que está o problema. Posso estar enganado, e de certo modo seria bom que estivesse, mas desconfio que sem a mudança de regime em Teerão, não haverá paz entre israelitas e palestinianos.