João Marques de Almeida

A derrota no Líbano
In Diário Económico, 21|Agosto|2006

Dificilmente, as coisas podiam ter corrido pior no Líbano. Quem não podia ganhar, venceu. Os que não podiam perder, saíram derrotados. Antes do conflito, o Hezbollah estava sobe pressão internacional para desarmar, de acordo com as Resoluções do Conselho de Segurança. Após a guerra, reforçou o seu poder e prestígio em toda a região, passando a ser o símbolo da resistência contra Israel. Tornou-se, simultaneamente, a referência do nacionalismo libanês, um exemplo das ambições do mundo árabe e muçulmano e um pilar central da estratégia iraniana no Médio Oriente. O outro grande vencedor é, obviamente, o Irão. Com a guerra do Líbano, deu um passo decisivo no confronto com o radicalismo Sunita, representado pela al-Qaeda, e os seus associados, para liderar o ”Islão político e diplomático”. Para alcançar a liderança, enquanto estes usam os ataques ao Ocidente, em geral, e aos Estados Unidos, em particular, o Irão utiliza o conflito com Israel, e a oposição de muitos em relação à existência do Estado judaico. A radicalização do confronto com os israelitas, iniciada com os ataques das organizações satélites de Teerão, o Hamas e o Hezbollah, beneficia claramente o regime iraniano. Está na altura de todos perceberem, pelo menos na Europa, que o grande obstáculo à criação de um Estado palestiniano é o Irão, e não Israel. No dia em que esse Estado for criado, a ”causa palestiniana” desaparece, e o Irão fica sem o elemento central da sua estratégia política. Chegamos aqui ao primeiro derrotado da guerra: o governo de Israel.

Como projecto de poder, o Kadima acabou com o cessar-fogo. O Partido foi constituído e ganhou as eleições com um objectivo específico: a retirada unilateral da Margem Ocidental do rio Jordão. Como já reconheceu o primeiro-ministro israelita, o plano da retirada foi abandonado. Depois do que aconteceu na Faixa de Gaza e no Líbano, já ninguém apoia o programa do Kadima. O partido limitar-se-á a liderar o governo até às próximas eleições. Como costumam dizer os ingleses, ‘they will be in Office, but not in power’. Aliás, os ataques do eixo Hamas-Hezbollah não foram inocentes. De acordo com os interesses do Irão, era necessário impedir a retirada unilateral de Israel. Já conseguiram. Os segundos derrotados foram os Estados Unidos. Por duas razões: antes de mais, porque os seus principais aliados regionais, os israelitas, foram incapazes de alcançar os seus objectivos; depois, porque o conflito libanês mostrou as suas actuais fragilidades, como resultado da situação no Iraque.

O terceiro derrotado foi a Europa, e temo que, a prazo, seja um dos principais vencidos. Após a guerra do Iraque, e beneficiando do desgaste norte-americano, a União Europeia procurou adoptar uma estratégia difícil para lidar como programa nuclear do Irão, apoiada num equilíbrio frágil. Por um lado, procurou agir em concerto com os Estados Unidos, quer no plano diplomático, quer no interior do Conselho de Segurança. Por outro lado, apesar da colaboração com Washington, pretendeu desenvolver uma estratégia alternativa ao uso da força militar, tão criticada no caso do Iraque, assente em instrumentos multilaterais e pacíficos. No entanto, tal como o recurso à guerra é por vezes um sinal de fraqueza, para se conseguir vencer através da paz, é necessário ter muita força. Ora, a guerra do Líbano acabou por se tornar um teste ao poder da Europa. Com os Estados Unidos enfraquecidos militarmente, com as opiniões públicas europeias a criticarem duramente a guerra e a apelarem permanentemente à paz, seria inevitável que a responsabilidade de resolver o conflito caberia à Europa. Assim sucedeu durante a fase da diplomacia, em grande medida devido à acção de Londres e de Paris. Os problemas começaram quando se discutiu o mandato e a composição da força militar, supostamente liderada pelos franceses. O Reino Unido e a Alemanha ofereceram meios navais (como sabemos, o Hezbollah tem uma marinha poderosa!), e a França, de um dia para o outro, passou de uma oferta de 5000 para 200 soldados. O segundo problema aconteceu com a definição da operação como ”manutenção da paz”, levada a cabo por capacetes azuis. Já se esqueceram da Bósnia, entre 1992 e 1995? Por definição, não é possível manter uma paz que não existe. Depois das guerras da antiga Jugoslávia, é impossível confundir ”paz” com ”cessar-fogo”. Há uma grande diferença entre desejar a paz, como resultado da fraqueza, e impor a paz, como uma demonstração de força. Será esta a primeira conclusão que Teerão retira do teste à Europa. A segunda será a seguinte: que não é capaz de desarmar o Hezbollah, é incapaz de impedir o Irão de ter armas nucleares. No Líbano, morreu a via europeia para lidar com os problemas estratégicos do Médio Oriente. Sobra, tragicamente, a guerra.