João Marques de Almeida

Os perigos da «neutralidade»
In Diário Económico, 07|Agosto|2006

De acordo com as lições aprendidas com o Iraque, americanos e europeus começaram a fazer um esforço para trabalharem juntos.

As notícias que nos chegam de Nova Iorque são boas. Os Estados Unidos e a França estão a concluir uma proposta de Resolução sobre a guerra do Médio Oriente para apresentarem aos restantes membros do Conselho de Segurança. Estes, por sua vez, têm enviado sinais de que estão dispostos a votar favoravelmente. Para quem se lembra das divisões durante a crise do Iraque, não pode deixar de ser uma evolução positiva. Ainda por cima, desta vez, estamos a assistir a uma iniciativa franco-americana. A guerra do Iraque demonstrou que os conflitos transatlânticos prejudicam os aliados ocidentais. Em Washington, a linha unilateralista foi derrotada pelas dificuldades iraquianas e, neste momento, prevalece o realismo político que reconhece a importância dos aliados. A fórmula “unilateralismo quando necessário e multilateralismo quando possível” foi invertida, passando a “unilateralismo quando possível e multilateralismo quando necessário”. Do lado europeu, percebeu-se que a oposição aos Estados Unidos divide a Europa, trava a integração europeia e impede a afirmação estratégica da União Europeia.

De acordo com as lições aprendidas com o Iraque, americanos e europeus começaram a fazer um esforço para trabalharem juntos. Criaram uma frente diplomática unida para lidar com o Irão, na qual a Alemanha tem desempenhado um papel relevante, e Washington e Paris, de novo, obrigaram a Síria a retirar as suas tropas do Líbano. Apesar das divergências que se notaram aqui e ali a propósito da guerra entre Israel e o Hezbollah, os aliados ocidentais têm feito um grande esforço para evitar as divisões. O sucesso das discussões no Conselho de Segurança é o resultado desse esforço.

No meio das boas novas, há, contudo, alguns perigos que nos devem preocupar. Gostaria de tratar aqui dos perigos da neutralidade. A propósito de uma possível constituição de uma força de intervenção europeia, o ministério da defesa alemão afirmou que devido ao passado do país seria impossível enviar tropas alemãs. Acrescentou, ainda e de um modo revelador, seria muito difícil a Alemanha manter a “neutralidade”. Note-se que esta declaração surgiu depois do primeiro-ministro israelita ter dito que aceitava a presença de forças alemãs. Além disso, a tentação da neutralidade não se limita à Alemanha, anda um pouco por toda a Europa. Normalmente, surge ao lado de uma outra ilusão: a paz como uma condição politicamente neutral. Estas ilusões são a consequência, como não podia deixar de ser, da experiência histórica da Europa. A tragédia de 1939-1945 e a paz extraordinária do pós-Guerra empurraram os europeus para fora da história. Um estado onde o uso da força militar é um mal absoluto, e nunca um instrumento necessário para resolver certos problemas, onde a paz é uma condição natural e não uma construção política, e onde todos os conflitos podem ser resolvidos através da negociação e do compromisso, sem que haja vencedores e derrotados.

O primeiro perigo da ilusão da neutralidade é, obviamente, o colapso da distinção entre aliados e inimigos. Só quem está fora da história é que acredita que é possível fazer política sem escolher. Uma coisa é certa: se a Europa quiser contar na política mundial não pode tornar-se numa espécie de “Finlândia da Guerra Fria”. Em segundo lugar, a persistência da neutralidade leva a um extremo cinismo, onde os valores fundadores da Europa serão inevitavelmente atraiçoados. Em caso algum, para regressarmos ao conflito do Médio Oriente, os europeus podem colocar Israel e o Hezbollah (ou o Irão) no mesmo plano. Aliás, para voltar à história, uma leitura correcta da reconstrução da Europa após 1945 e após 1989 mostra uma sequência de vitórias políticas e de defesa de valores incompatível com a neutralidade. O último perigo é a incapacidade de interpretar correctamente a natureza da ameaça que a Europa enfrenta. O movimento radical islâmico não resulta da pobreza, da hegemonia norte-americana ou do conflito israelo-palestiniano, mas sim da emergência de um paradigma universal incomensurável com o paradigma europeu. Para se entender estas coisas, no entanto, é necessário regressar à história. Aquela realidade onde existem vitórias, derrotas, aliados e inimigos. Mas ao mesmo tempo o único sítio onde se pode defender a identidade política da Europa.