João Marques de Almeida

Um teste à Europa
In Diário Económico, 31|Julho|2006

Infelizmente, alguns sinais sugerem que a União Europeia poderá não aproveitar a oportunidade de começar a ter uma política de segurança e de defesa a sério. As discussões que se iniciam hoje no Conselho de Segurança e a reunião de amanhã dos ministros dos negócios estrangeiros da União arriscam-se a ser inconclusivas. Em grande medida, o provável fracasso resultará da desorientação que se começa a instalar em muitas capitais. O desejo de um cessar-fogo a todo o custo confunde a análise e retira lucidez estratégica. Uma das consequências é a tendência, que se manifesta gradualmente, em colocar o Hezbollah no mesmo plano que os governos de Israel e do Líbano. Este é o erro que não pode ser cometido em nenhuma circunstância. Seria antes de mais uma forma de recompensar o crime, dando ao movimento terrorista libanês um estatuto de que não gozava antes de ter atacado Israel. Se em Washington há por vezes a tendência para se cair num maniqueísmo extremo, em muitas capitais europeias nota-se o perigo oposto: a recusa em fazer distinções e em tomar partido. Assim, não é possível adoptar qualquer tipo de estratégia política. Vamos então por partes, para explicar o que a União Europeia deveria fazer.

Desde logo, é fundamental manter uma grande clareza sobre quem devem ser os derrotados desta crise. O objectivo do “cessar-fogo imediato” parte do pressuposto perigoso e ilusório de que todos podem ganhar ao mesmo tempo. É impossível. O que normalmente acontece é que todos perdem, e tudo fica na mesma, sob a capa de um novo “processo de paz”. Ora, neste conflito, e de acordo com os interesses europeus, os derrotados devem ser o Hezbollah e o Irão. O grupo radical xiita deve ser completamente desarmado, tal como estipula a Resolução 1559 do Conselho de Segurança, aprovada em 2004. Não haverá democracia no Líbano, nem sequer uma soberania plena enquanto existirem movimentos com milícias armadas, que ainda por cima respondem, em primeiro lugar, aos governos de outros países. E aqui não há meio-termo, apenas se pode, mais uma vez, adiar a solução do problema. A derrota do Hezbollah significaria um profundo abalo na estratégia expansionista de Teerão. A estratégia de hegemonia regional do Irão, e no essencial é assim desde 1979, baseia-se no confronto com Israel, para captar as preferências da “rua árabe”, profundamente desiludida com as sucessivas derrotas das potências regionais árabes, desde 1967. O ódio a Israel é de resto a única forma do Irão combater a sua natureza persa e xiita, obstáculos poderosos à expansão hegemónica no Médio Oriente. A estratégia do combate a Israel exige aliados e bases militares nos territórios fronteiriços, como o sul do Líbano. Com o fim destes, o Irão ficará naturalmente enfraquecido. Ora, neste momento, a grande questão estratégica da região para os países europeus é o aumento ou a diminuição do poder de um Irão expansionista e revolucionário. Se a Europa pretende ser coerente com o que tem feito nos últimos anos, não pode haver dúvidas nem hesitações.

As últimas semanas já demonstraram que a operação militar de Israel será insuficiente para desarmar o Hezbollah. Os custos humanitários, políticos e diplomáticos são demasiado elevados para o permitirem. No entanto, a União Europeia deveria terminar o que Israel começou. E nem sequer se julgue que os israelitas seriam s principais beneficiados. Quem mais ganharia com isso seria o governo e a população libaneses. Neste sentido, a operação militar israelita, mesmo sem ser essa a sua intenção, está a implementar a Resolução 1559, já que até hoje ninguém o fez. Paralelamente à conclusão do desarmamento do Hezbollah, no plano diplomático, os europeus deveriam afastar a Síria do Irão. A Síria tem interesses próprios, mas o seu isolamento está a torná-la demasiado dependente do Irão. Começam, aliás, a vir sinais de Damascus de que não pretende tornar-se simplesmente num instrumento da estratégia expansionista de Teerão.

Se os países europeus tivessem verdadeiramente vontade, e fossem capazes, de reintegrar a Síria diplomaticamente, de intervir militarmente para desarmar o Hezbollah e impedir o uso do sul do Líbano para atacar Israel, assistiríamos ao verdadeiro nascimento de uma política europeia de segurança e defesa. Os europeus reforçariam ainda as suas alianças com Israel e com o Líbano, ajudando, por um lado, a garantir a segurança do seu aliado histórico e, por outro lado, a consolidar um eixo democrático no Médio Oriente. Contribuiriam, por fim, para a reconciliação transatlântica, e mostrariam mesmo a Washington a sua utilidade estratégica, calando as vozes mais anti-europeias da administração norte-americana. Todavia, para que tudo isto aconteça, a Europa necessita de definir claramente os seus interesses estratégicos, os seus aliados e os seus inimigos. Pode-se formular todos os conceitos e planos de paz do mundo, mas sem estas clarificações, não há política externa. Se por força das circunstâncias, a União atingir a sua maioridade estratégica, Portugal deve enviar forças para a região. Um país que deseja estar no primeiro pelotão da política europeia de segurança e defesa não pode ausentar-se quando essa política verdadeiramente começar.