Carlos Gaspar

O inimigo totalitário
In Jornal Sol, 16|Maio|2009

Os movimentos totalitários do século XX – o nazismo e o comunismo – não sobreviveram aos Estados onde tomaram o poder e que não conseguiram destruir inteiramente.

Hannah Arendt explicou o dilema dos regimes totalitários: se as instituições revolucionárias se tornassem um modo de vida nacional, o totalitarismo perderia a sua qualidade “total” e ficaria submetido à lei das nações, segundo a qual cada Estado possui um território, um povo e uma tradição histórica.

O paradoxo do velho totalitarismo era o resultado da dependência dos instrumentos de poder do Estado para realizar o seu programa de dominação universal. Os movimentos totalitários só podiam sobreviver se pudessem alcançar a “dominação total da população total da terra” e, para conquistar o mundo, precisavam do poder dos Estados. Mas esse poder significava um confronto com a realidade que negava a ficção totalitária. O nazismo e o comunismo, imersos na guerra total, não podiam dispensar as instituições militares, que impuseram limites às suas estratégias de conquista e os forçaram a compromissos com o Estado e o nacionalismo, que se revelaram fatais. Em 1945, George Kennan, constatava que o entusiasmo revolucionário das massas soviéticas tinha desaparecido completamente e que o comunismo, visto como a “vaga do futuro” por tantos intelectuais ocidentais, tinha perdido o élan totalitário.

Os novos movimentos totalitários, simbolizados pela Al Qaida e pelas redes do terrorismo jihadista, ao mesmo tempo mais arcaicos e mais modernos do que o comunismo e o nazismo, parecem ter dado um passo importante para resolver o dilema que destruiu os seus predecessores.

Com efeito, os revolucionários pan-islâmicos pertencem a um novo tipo de organizações que não só reconhecem os perigos que o poder do Estado representa para o programa totalitário, como constatam os limites e as vulnerabilidades crescentes do Estado contemporâneo e desistiram de conquistar uma base territorial fixa – a Al Qaida, sinónimo de “base”, é o nome de uma rede que está em toda a parte sem estar em nenhum lugar.

No passado, como ficou, por vezes, tragicamente demonstrado, um grupo sem Estado era um grupo fraco. Os antigos movimentos revolucionários, a começar pelos movimentos de libertação nacional, tinham como objectivo principal criar um Estado, para poder garantir a protecção de uma comunidade territorial. Porém, a incapacidade da grande maioria dos Estados para assegurar autonomamente a sua independência perante a concentração do poder nas grandes potências e as mudanças tecnológicas que determinam a difusão internacional do poder, tornaram mais fracos os Estados e mais fortes os grupos sem Estados.

Jakub Grygiel, num ensaio sobre “The Power of Statelessness”, diz que, hoje em dia, a maior parte dos grupos sem Estado não quer ter um Estado. Graças às tecnologias modernas, esses grupos podem organizar-se, financiar-se, aramar-se e agir contra os seus inimigos – os Estados – sem formar um Estado. Por outro lado, as responsabilidades de governar um Estado implicam sempre compromissos políticos que prejudicam a realização das ideologias extremistas. O programa dos totalitários pan-islâmicos – a restauração da umma – antecipa a formação de uma comunidade de crentes sem Estado que a Al Qaida, ao contrário dos fundamentalistas iranianos, não quer criar a partir da tomada do poder em nenhum Estado.

A Al Qaida demonstrou o poder dos grupos sem Estado, quando demonstrou a sua capacidade de sobreviver às sucessivas tentativas dos Estados Unidos para a destruir. Bill Clinton respondeu aos primeiros atentados com um bombardeamento a longa distância dos santuários (abandonados) da Al Qaida no Afeganistão, George Bush respondeu ao “11 de Setembro” com a invasão do Afeganistão e do Iraque, Barack Obama está a responder à ameaça das redes revolucionárias pan-islâmicas que se organizam nas cidades modernas perseguindo Osama bin Ladin, ou o seu mito, nas cavernas primitivas da fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão.

A Al Qaida e a sua rede não conseguiu repetir nem o “11 de Setembro”, nem os atentados contra as capitais europeias, embora tenha confirmado as suas capacidades no último ataque contra Bombaim. Mas não só demonstrou as vulnerabilidades das sociedades abertas onde os novos movimentos totalitários se formam e escolhem os seus objectivos, como conseguiu impor aos Estados Unidos e às potências relevantes um preço desproporcionado na resposta à ameaça de um grupo sem Estado.

O perigo principal de guerra contra o inimigo totalitário é o contágio. Para responder a uma ameaça radicalmente descentralizada, os Estados podem recorrer a uma estratégia de descentralização securitária, que acabaria não só por destruir o seu monopólio da violência organizada legitima e o primado do direito, como prejudicaria a sua capacidade de concentração de poder indispensável para garantir a liberdade nacional e responder às ameaças convencionais dos outros Estados.