Manuela Franco
A Porta Otomana
In Jornal Público, 04|Outubro|2009
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Em Genebra, o grupo P5+1, que reúne as membros permanentes do Conselho de Segurança, e a Alemanha, cumpriu nova tentativa de levar o Irão a aceitar restringir a fins civis o seu uso de energia nuclear. Na Villa Le Saugy, junto ao lago Leman, o representante do Irão, em pé de igualdade com as principais potencias, sentou-se à mesa com os EUA, rodeado de todos os obséquios, provando assim o grande valor dos comportamentos de risco e de uma boa gestão das apostas em material nuclear ofensivo As reuniões altamente reservadas em que se ponderam destinos de povos e países em villas do século dezoito nos verdejantes arredores de Genebra, não são novidade para a Turquia. Membro não permanente do CS, a Turquia fez-se lembrada anunciando, em Nova Iorque e em Ankara, que fará o seu melhor para evitar que propostas de sanções ao Irão cheguem a ser apresentadas ao CS. O MNE turco, Ahmet Davutoğlu, Ministro dos Negócios Estrangeiros, considerou as sanções “indesejáveis pois trariam dificuldades ao povo iraniano e aos vizinhos do Irão”. A talhe de foice, o PM Erdogan, comentou também para a imprensa internacional, que o Irão estava nas mãos da Agencia Internacional de Energia Atómica, e que a haver problema com o nuclear, havia que começar por pedir contas a Israel, que não é parte no Tratado de Não Proliferação. Há um par de meses, foi notícia a oposição turca à nomeação para Secretário Geral da NATO do Primeiro Ministro da Dinamarca, Rasmussen, a pretexto da ofensa islâmica dos famosos cartoons e também de uma opinião emitida sobre as dificuldades de entrada da Turquia na UE. Consta que o consenso para a nomeação do SG Rasmussen só se obteve graças à intervenção do Presidente Obama, junto com uns altos cargos na estrutura da NATO e a promessa de reabertura de capítulos da adesão à UE. Antes, já o PM Erdogan, nos dera, em Davos, uma cenaça em prol da causa palestiniana, abandonando intempestivamente aos gritos um debate de TV com o Presidente de Israel Shimon Peres. E anteriormente, os turcos haviam também recebido o líder do Hamas, e os Presidentes do Sudão e do Irão, este com manifestações de rua e gritos de “morte à América e Israel”. Que se passa no flanco sul? Mais um prego no caixão da NATO? Ou uma boa achega para a reformulação, em curso, do respectivo conceito estratégico? Será que, para assegurar a defesa europeia, a NATO terá de assumir uma nova personalidade “social”, a de organização de consumidores de recursos energéticos? A Turquia continua ancorada no Tratado do Atlântico Norte. Todavia, passo a passo, pedra a pedra, vai construindo a sua autonomia estratégica. Este caminho revelou-se claramente, em 2003, com a recusa pelo Parlamento turco, da moção que autorizaria o trânsito de tropas americanas para o Iraque. Essa recusa marcou a chegada ao poder do partido AKP do actual governo; e marcou também o momento em que a Rússia e os vizinhos árabes e islâmicos da Turquia começaram a acreditar na des-ocidentalização de Ankara. E tem fundamentado, dentro e fora da Turquia, interpretações de islamização da política externa turca. O arquitecto da nova política externa é o MNE Davutoglu, autor de uma obra de referência “Profundidade Estratégica” e de há muito conselheiro principal do AKP. Oriundo da Anatólia central, pertence com o PM Erdogan e o presidente Gul, a uma nova “elite”, tida por mais islâmica e conservadora. Porém, a nova política externa não tem nada de conservador. A nova abordagem assume que Turquia é um país principal no meio da massa afro-euro-asiática, com múltiplas identidades regionais, não redutíveis a uma expressão simples: a sua esfera de influência abarca o Médio Oriente, os Balcãs, o Cáucaso, a Ásia central, o Mar Cáspio, o Mediterrâneo, o Golfo Pérsico e o Mar Negro. A Turquia não se pode mais dar ao luxo de uma posição “neutralista” defensiva e deve reclamar a sua condição de país central, que precisa de assumir um papel mais activo, construtivo, para alcançar ordem e estabilidade dentro e fora de portas. Isto consegue-se com um turbilhão de actividade diplomática, com propostas de integração económica e política (vg Síria e Iraque), tudo obedecendo a regras bem estabelecidas, como a de “Zero Problemas”, um total realismo com a vizinhança, sejam estados ou actores não estatais; e uma “política externa multidimensional”, isto é agir para fortalecer a posição da Turquia no “eixo principal” da adesão a UE e aumentar a capacidade negocial no que respeita ao Médio Oriente. Assim se reorganizam como diversas facetas de uma política consistente as relações estratégicas com os EUA, seja pela via bilateral seja via NATO, o processo de adesão a UE, abrir a África, a pacificação do Cáucaso, política de boa vizinhança com a Rússia, a dinamização da Organização da Conferencia Islâmica e a sincronização na Eurásia. Uma maior influência turca no Médio Oriente e em África, seria decerto uma maneira eficaz de subverter a oposição de alguns países europeus que tem interesses vitais na região à entrada da Turquia na UE. De certo modo, um dos grandes testes a validade desta “otomanização” estará na política com Israel, reconhecido pela Turquia em 1949, com relações diplomáticas plenas. É que Israel, tal como a Jordânia, a Síria, o Líbano e o Iraque são estados sucessores do Império Otomano, igual e contemporaneamente nascidos de mandatos da Liga das Nações, e que entre si garantem um equilíbrio politico próprio, se bem que instável. E agora após o alargamento da NATO e da UE a Leste ter consensualizado e ordenamento politico europeu lançado em 1919 consolidando, por via contratual as fronteiras e a convivência politica entre os estados sucessores do Império Austro Húngaro, agora chegou a vez de regular a sucessão do Império Otomano. Otomanização ou simples islamização, essa é a questão.
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