António Vitorino

Detalhes
Diário de Notícias, 28|Março|2008

Os europeus normalmente recusam reconhecer que a vida política americana tem sempre grande impacto no Velho Continente.

Mas basta atentar na projecção da corrente campanha eleitoral nos EUA para verificar como as opiniões públicas europeias seguem atentamente o que se passa do outro lado do Atlântico.

Com efeito, desde há várias décadas a política americana tem sido um laboratório de inovação que antecipa tendências que, mais cedo ou mais tarde, acabam por assentar arraiais na Europa.

Por isso, muitos especialistas europeus em eleições e campanhas eleitorais, além de responsáveis partidários, seguem de perto a conduta dos partidos e candidatos americanos.

Ora um dos aspectos em que os padrões americanos não têm tido sequência directa na generalidade dos países europeus diz respeito à correspondência dos padrões de conduta privada dos políticos e sua projecção na vida pública.

As últimas semanas têm sido férteis em exemplos.

Tudo começou com a demissão do governador do estado de Nova Iorque: um político oriundo da vida judiciária, eleito com base numa campanha de moralização da sociedade, que era frequentador de uma rede de prostituição. O seu substituto, o vice-governador que foi promovido na sequência da demissão daquele, veio logo a público (com a mulher) divulgar que no passado, no decurso de uma crise conjugal, ambos haviam cometido adultério, mas no seu entendimento tal facto, agora confessado, não o impediria de exercer o cargo a que acabara de aceder.

Estes dois casos revelam formas distintas de assumir a projecção da vida privada na assumpção de responsabilidades públicas. Independentemente das diferenças entre os dois, o ponto comum é o de que em ambos os casos o juízo de carácter sobre os titulares de cargos públicos abrange a sua esfera privada.

Esta cultura política de escrutínio exaustivo da vida privada, naquilo que ela tem de mais íntimo, felizmente que não se encontra (ainda) presente na vida política europeia, com excepção da imprensa tablóide britânica, embora aqui sem o impacto e a projecção colectiva que tem nos Estados Unidos.

O mesmo, contudo, já não se verifica quanto à situação fiscal dos candidatos. Esta semana, Barack Obama divulgou os seus rendimentos e responsabilidades fiscais nos últimos seis anos, desafiando Hillary Clinton a proceder da mesma forma. Na Europa, de igual modo, o perfil contribuinte dos titulares de cargos públicos tem vindo a acompanhar de perto a evolução americana, sendo hoje claramente um elemento relevante de valoração de candidatos e de políticos em exercício de funções. No seu conjunto pode-se dizer que a vida privada dos políticos releva dos dois lados do Atlântico, diferindo contudo a fasquia do escrutínio público quanto ao âmbito das matérias desse foro privado que relevam para o julgamento dos eleitores.

Esta diferença corresponde também a uma distinta valoração que americanos e europeus fazem dos políticos. Na realidade, de um modo geral, pode-se dizer que a opinião pública americana tem os seus políticos em melhor conta do que os europeus têm os seus. Por isso, a exigência de exemplaridade na conduta dos políticos é mais ampla entre os americanos do que entre os europeus.

Só que nos Estados Unidos essa exigência leva os políticos, por vezes, a pretenderem elevar-se à categoria de heróis. Esta semana a senhora Clinton foi vítima desse excesso de zelo, ao apresentar-se como um modelo de virtudes ao desembarcar em Sarajevo debaixo de fogo de atiradores furtivos no final dos anos 90. Logo de seguida as televisões mostraram imagens tranquilas de um desembarque com a filha bem longe do cenário dantesco que a candidata havia descrito, o que a obrigou a uma retractação pública. E, contudo, só quem não esteve de facto na Bósnia nesses tempos é que pode ignorar que o perigo dos atiradores furtivos era então bem real...

Por isso a visita da senhora Clinton foi um acto de coragem que ninguém pode negar. O que a perdeu foi o exagero e a vertigem da heroicidade. E aos heróis não se perdoa que falhem nos detalhes.