António Vitorino

Escolhas difíceis
Diário de Notícias, 8|Fevereiro|2008

Acompanhar as eleições primárias americanas é um exercício de aprendizagem política, até porque é sabido que a política americana é um verdadeiro laboratório de técnicas de campanha e de produção de modelos de políticos que, mais cedo ou mais tarde, com as devidas adaptações, surgem na Europa.

Ninguém pode negar o impacto que na política europeia teve a eleição de Ronald Reagan e a "revolução conservadora" de Newt Gringrich nos anos 80. Como são iniludíveis as relações entre a era Clinton e a vaga modernizadora do pensamento socialista e social-democrata europeu nos anos 90.

Também por isso é importante para os europeus quem vai ganhar as próximas eleições presidenciais americanas.

Depois da chamada superterça-feira uma coisa parece já adquirida: não haverá sucessão directa do actual Presidente republicano.

Com efeito, John McCain aparece como o favorito para a nomeação republicana, ele que muitas vezes aceitou pagar o preço do isolamento para enfrentar a Administração Bush e que manifestamente não está nas boas graças do núcleo duro conservador e evangelista. Apesar dos sinais de resistência da candidatura de Mike Huckabee, pode dizer-se que, no campo republicano, já está em marcha o processo de nojo pós-Bush.

A plataforma política de McCain retoma muitos dos valores do pensamento tradicional republicano e o seu protagonista tem características pessoais que o tornam atraente para o eleitorado independente de centro, que normalmente é decisivo nas vitórias eleitorais. Aos conservadores radicais restará o "voto útil" em McCain, mais fácil de canalizar se a adversária democrata for Hillary Clinton, cuja vitória faria dos anos Bush pouco mais que um interregno entre dois Clintons...

Mas, do lado democrata, as coisas aparecem menos claras.

Na superterça-feira, Hillary ganhou por escassa margem em votos e em delegados à Convenção Democrata, Obama ganhou em número de estados, com a particularidade de ter tido melhores resultados em estados tradicionalmente dominados pelos republicanos... Tudo está, pois, em aberto.

Clinton mantém o apoio firme da máquina democrata tradicional e mobiliza as mulheres, as classes média e média baixa, o voto hispânico.

Obama não viu afectada a sua dinâmica de crescimento, conta com o apoio militante dos eleitores mais jovens (muitos deles eleitores pela primeira vez) e do eleitorado afro-americano.

Para os especialistas em eleições, o panorama actual terá um desfecho ditado sobretudo por um critério táctico: o juízo que os eleitores das próximas primárias farão sobre qual o candidato que tem mais hipóteses de derrotar John McCain.

Mas independentemente da escolha em concreto do candidato democrata, estas primárias já mostraram que a América está a mudar.

Com efeito, dos três candidatos em liça neste momento, dois provêm de posições exteriores ao centro de poder dos respectivos partidos (McCain e Obama).

A candidatura de Hillary Clinton prova que o facto de ser uma mulher - com todos os preconceitos que tal poderia significar mesmo em sectores progressistas do eleitorado americano - não prevalece sobre a adesão a um discurso político que cala fundo no sentimento de vulnerabilidade e de desprotecção das classes trabalhadoras nos Estados Unidos.

E a candidatura de Obama, pela renovação do discurso e da lógica política de que é portadora, mostra-se capaz de ultrapassar as divisões das origens rácicas, penetrando nas elites do eleitorado branco sem dificuldades, e mesmo capaz de atrair eleitores moderados.

A escolha dos democratas, contudo, não vai ser fácil.

Porque as alternativas Clinton e Obama não são, de facto, apenas diferentes no estilo, mas na substância das políticas e mesmo nos públicos-alvo.

A Convenção Democrata terá de evitar uma escolha dilacerante que divida irremediavelmente o eleitorado do partido.

Mas de igual modo terá de evitar uma escolha obscura, determinada pelos supereleitores que são os dignitários do partido na Convenção. Escolhas difíceis de facto!