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Artigo de opinião no Diário de Aveiro, 15 | dezembro | 2019

Rui Oliveira




Factos e opiniões? Jornalismo e a importância da leitura

Uma democracia sem cidadãos informados não é saudável. E num momento em que existem tantos veículos e potencial para conspiração e cinismo, é fundamental reconhecer e valorizar o importante papel que o jornalismo desempenha. A intersecção entre tecnologia e política tem sido um dos campos onde isso é mais claro. A discussão sobre liberdade de expressão nas redes sociais, a luta contra o discur so de ódio, a utilização das falhas (ou a desadequação) da secção 230 da «legislação da internet» nos EUA, a posição do Facebook em relação à influência russa nas eleições americanas, são apresentadas e discutidas de forma séria por uns e inundada por teorias da conspiração e falsa informação por outros.

Concomitantemente, dados recentes do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) da OCDE, um teste internacional ao desempenho a matemática, ciência e leitura de alunos de 15 anos, apontam para o facto de apenas 9% dos alunos alcançarem resultados elevados na capacidade de distinguir entre factos e opiniões (uma subida de 2% em relação a 2009, mas ainda assim preocupante).

Estes dois pontos são relevantes para o que gostaria de discutir: ainda é possível percebermos o que é bom jornalismo e mau jornalismo? Para tal, vou socorrer-me da série «The Loudest Voice», sobre o crescimento e papel da Fox News e o seu antigo CEO Roger Ailes, e do livro «She Said: Breaking the Sexual Harassment Story That Helped Ignite a Movement», de Jodi Kantor e Megan Twohey do New York Times (NYT). A série e o livro descrevem abusos de poder, como os perpetradores o conseguiram fazer durante anos, os efeitos nas vítimas e como tudo foi desmascarado pelas próprias vítimas em conjunto com investigação jornalística. Contudo, neste texto queria, sobretudo, chamar a atenção para as duas interpretações de jornalismo expostas.

No caso da série, a forma como o jornalismo é utilizado, simultaneamente, para defender interesses particulares (económicos, políticos, ambições pessoais) e ganhar audiências na base do medo e desinformação; no livro, como o jornalismo é um exercício que combina um compromisso de ética, moral e prova com um desejo profundo de corrigir o que de errado se passa no mundo. Enquanto no tipo de jornalismo relatado na série existe um objectivo de perpetuar a distância entre as pessoas, no livro o principal propósito do jornalista é mostrar o abuso, o cri me, por mais tempo que isso demore e por mais obstáculos a ultrapassar.

As autoras do NYT referem que «o impacto no jornalismo vem de especificidade: nomes, datas, prova e padrões» (p. 36). Isto em claro contraste com o projecto de Roger Ailes, que tentava dar «não só a verdade, mas a verdade que os espectadores querem» ou baseado na ideia de que «se conquistas o público pelo sentimento, e não pelo pensamento, nunca mais deixarão de ser fiéis» (parafraseado). Temos, assim, duas formas opostas de jornalismo. Uma que nos mostra a distribuição de informação sem base em quaisquer critérios jornalísticos, e outra, a das jornalistas do NYT e a sua admirável busca por provas, o pormenor da escrita, os avanços e retrocessos, a luta entre o desejo de defender as vítimas e seguir as várias fases do trabalho jornalístico, nomeadamente expor factos fidedignos e inequívocos. É possível distinguir entre bom e mau jornalismo? Sim. Todavia, e focando no lado do leitor e na questão da sobrevivência e qualidade do jornalismo, há duas coisas, interligadas, que considero essenciais: depende do que queremos, se apenas reforçar as nossas inclinações ou aprender mais sobre a nossa realidade; e, considerando os dados do PISA, que a educação para a leitura é crucial nessa decisão, e não só.

 

Fonte: Diário de Aveiro

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